Enquanto as cadeias globais de suprimento continuam a se expandir e digitalizar, os sistemas logísticos na América Latina e no Caribe (LAC) permanecem conectados de forma desigual no nível regional. As discussões durante o webinar LAC eFTI4ALL apontaram para um desafio recorrente: apesar de fortes conexões internacionais, a integração intra-regional ainda é limitada, tanto em termos de fluxos físicos quanto de troca de dados.
Nesse contexto, o surgimento de frameworks digitais de frete, como o eFTI, levanta uma questão mais ampla: sistemas padronizados de dados podem ajudar a reduzir essas lacunas e apoiar uma logística mais coordenada em toda a região?
Uma região conectada globalmente, mas fragmentada internamente
Um dos principais pontos destacados na sessão está nessa contradição estrutural: a região está profundamente conectada aos fluxos comerciais globais, mas permanece apenas parcialmente integrada dentro de sua própria geografia.
Serge Letchimy ilustrou esse desequilíbrio de forma concreta, observando que “importamos muito”, enquanto “9 de cada 10 contêineres saem vazios ou meio vazios”. Para além da ineficiência, isso aponta para um sistema logístico estruturado principalmente em torno de cadeias de suprimento externas, e não da circulação regional.
Ele também sugeriu que os modelos atuais “não foram concebidos para organizar mercados regionais”, reforçando uma dinâmica em que a região funciona mais como um espaço de trânsito do que como um gerador de valor. Nesse contexto, a conectividade global não se traduz necessariamente em coesão regional.
Além da infraestrutura: o desafio da coordenação
Embora a infraestrutura seja frequentemente vista como o principal gargalo, as discussões indicam uma realidade mais complexa.
Serge Letchimy apresentou a logística como um sistema mais amplo, que vai além dos fluxos físicos, incluindo informação, coordenação e processos de tomada de decisão. Sem alinhamento entre essas camadas, melhorias na infraestrutura isoladamente podem ter impacto limitado.
Sandra Casanova trouxe uma perspectiva mais operacional, observando que “a informação não circula facilmente” e que os sistemas permanecem insuficientemente conectados. Ela apontou “controles redundantes” causados pela falta de interoperabilidade, inclusive entre territórios estreitamente ligados.
Na prática, isso resulta em sistemas paralelos operando lado a lado, em vez de funcionarem como parte de um framework regional unificado. A questão, portanto, não é apenas movimentar mercadorias com mais eficiência, mas permitir que os atores operem dentro de um sistema compartilhado.

Os dados como camada ausente na integração regional
Ao longo das intervenções, um elemento surge de forma consistente como lacuna: os dados.
Sandra Casanova destacou a ausência de informação estruturada, mencionando a falta de “estatísticas e de um observatório com coleta e exploração de dados”. Essa limitação reduz a visibilidade das cadeias de suprimento e restringe tanto o planejamento quanto a coordenação.
Sem padrões compartilhados ou dados em tempo real, os operadores enfrentam ambientes informacionais fragmentados, o que dificulta antecipar interrupções e otimizar fluxos. Nesse sentido, os dados não apenas apoiam a logística — eles são fundamentais para sua eficácia.
Isso sugere que a integração regional depende não apenas de infraestrutura e alinhamento de políticas, mas também da capacidade de construir uma camada de dados compartilhada em todo o ecossistema.
eFTI como facilitador potencial, não como solução
Dentro desse contexto, o framework eFTI foi apresentado como um possível passo em direção a uma maior coordenação.
Sandra Casanova o descreveu como “uma linguagem comum de dados harmonizados”, permitindo “trocas seguras entre operadores e autoridades públicas” e viabilizando “dados em tempo real e rastreabilidade dos fluxos”. O objetivo não é apenas digitalizar processos, mas criar uma estrutura comum para o intercâmbio de informações.
Do ponto de vista técnico, Heiti Mering destacou a transição para além dos sistemas baseados em papel, afirmando que “não precisamos mais seguir processos baseados em papel”. As plataformas digitais poderiam permitir trocas mais fluidas — desde que interoperabilidade e segurança sejam garantidas.
Ao mesmo tempo, as discussões indicam que o impacto dessas ferramentas permanece condicionado. Sua eficácia depende da adoção em larga escala, do alinhamento entre stakeholders e da integração com sistemas existentes. Nesse sentido, o eFTI parece menos uma solução em si e mais um framework capaz de viabilizar mudanças sob determinadas condições.
Frameworks regionais já existem
É importante destacar que a região não parte do zero.
A Dra. Pauline Yearwood apontou para os frameworks de políticas de transporte existentes no âmbito da CARICOM, que visam garantir “serviços de transporte adequados, seguros e competitivos internacionalmente” para apoiar o desenvolvimento regional. Ela também destacou que “o transporte aéreo e marítimo é essencial” em um contexto onde a maioria dos países está separada pelo mar.
Esses elementos sugerem que as bases institucionais para a integração já estão estabelecidas. No entanto, transformar políticas em coordenação operacional ainda representa um desafio.
Nesse contexto, frameworks digitais de frete podem complementar as estruturas existentes ao fornecer ferramentas que apoiem a execução — sem substituir a necessidade de alinhamento político.
Da ambição à execução
Uma tensão recorrente ao longo do webinar está na diferença entre ambição e implementação.
Por um lado, há uma clara intenção de fortalecer a integração regional, apoiada por frameworks institucionais e posicionamentos estratégicos. Por outro, realidades operacionais — sistemas fragmentados, compartilhamento limitado de dados e lacunas de coordenação — continuam a desacelerar o progresso.
Ferramentas digitais podem ajudar a reduzir algumas dessas fricções, mas seu impacto depende de como são implementadas e adotadas ao longo do ecossistema. Como sugerido nas discussões, melhorar a integração exige não apenas soluções tecnológicas, mas também alinhamento entre atores públicos e privados.
Conclusão – Integração ainda condicionada
As discussões sugerem que frameworks digitais de dados podem contribuir para uma integração logística mais profunda na região, ao melhorar fluxos de informação e coordenação.
Ao mesmo tempo, essa integração permanece condicionada. Depende não apenas da disponibilidade de ferramentas, mas da capacidade de alinhar padrões, garantir interoperabilidade e coordenar múltiplas jurisdições e stakeholders.
À medida que a região avança na exploração dessas abordagens, a trajetória aponta para uma transformação gradual, e não imediata. O frete digital abre novas possibilidades — mas o grau em que elas se traduzirão em integração concreta dependerá de como esses sistemas serão implementados e adotados ao longo do tempo.



