No Seatrade Cruise Global, as discussões sobre crescimento, infraestrutura e estratégias de destinos geralmente dominam a agenda. No entanto, durante a sessão “Travel Changes Our DNA — and the Lessons for Brands”, realizada em 13 de abril no Sunset Vista Salon, o foco se voltou para outra dimensão da indústria: o viajante.
Apresentando uma pesquisa proprietária da R&R Partners, Justin Gilbert e Amberlee Engle exploraram como a viagem deixou de ser apenas uma experiência para se tornar um catalisador de transformações comportamentais, emocionais e até de valores. As conclusões sugerem que compreender como a viagem transforma os indivíduos pode se tornar cada vez mais central na forma como marcas de cruzeiros e destinos concebem, posicionam e comunicam suas ofertas.
Do turismo tradicional ao “deep travel”
Um conceito central apresentado na sessão é a distinção entre o chamado “turismo tradicional” e uma forma mais transformadora de experiência denominada “deep travel”.
Segundo Justin Gilbert, Executive Vice President Strategy & Intelligence da R&R Partners, o turismo tradicional é frequentemente motivado por necessidades imediatas, como descanso, escape ou entretenimento. Em contraste, o “deep travel” é definido pelo seu impacto duradouro sobre os indivíduos — influenciando a forma como eles se percebem, percebem os outros e o mundo ao seu redor.
A pesquisa sugere que esse tipo de experiência está longe de ser marginal. Cerca de 54% dos viajantes entrevistados afirmaram ter vivido uma viagem com impacto pessoal duradouro, desafiando a ideia de que experiências transformadoras são restritas a nichos específicos.
Essa distinção indica uma mudança na forma como o turismo é percebido — de uma simples pausa temporária para uma experiência com significado duradouro.

Transformações comportamentais além da viagem
A sessão também destacou que essas experiências mais profundas vão muito além da duração da viagem.
Viajantes que relataram ter vivido experiências de “deep travel” demonstram maior propensão a adotar novos comportamentos no dia a dia, incluindo a busca por novas experiências, a priorização do desenvolvimento pessoal e uma maior atenção ao autocuidado.
Eles também tendem a explorar ambientes desconhecidos de forma independente e a incorporar elementos das suas experiências de viagem em suas rotinas cotidianas — desde decisões de consumo até escolhas de estilo de vida.
Essas conclusões sugerem que a viagem pode influenciar padrões comportamentais de longo prazo, posicionando-se como um vetor de transformação e não apenas como uma experiência isolada.
Redefinição de prioridades e expectativas
Para além do comportamento, a pesquisa aponta para uma mudança mais ampla nas prioridades dos viajantes.
Embora motivações tradicionais como descanso e escape permaneçam relevantes, experiências de “deep travel” parecem elevar a importância de fatores como descoberta cultural, momentos marcantes e conexões significativas.
Justin Gilbert destacou que essas experiências frequentemente levam os indivíduos a reavaliar o que realmente importa, dando maior peso às relações, ao desenvolvimento pessoal e a atividades com propósito.
Essa evolução sugere que as expectativas dos viajantes estão se tornando mais complexas, com uma demanda crescente por experiências que vão além do entretenimento e proporcionem significado pessoal.
Novas dinâmicas no comportamento de cruzeiros
Diversas tendências discutidas durante a sessão mostram como essas mudanças já estão impactando o setor de cruzeiros.
Amberlee Engle, Chief Client Officer da R&R Partners, destacou o crescimento das viagens solo no segmento de cruzeiros, que já representam cerca de 12% dos passageiros e continuam em expansão.
Ela observou que esses viajantes são frequentemente motivados por autodescoberta e reinvenção pessoal, buscando experiências que ofereçam maior imersão e autonomia.
A discussão também evidenciou o crescente interesse por cruzeiros temáticos, nos quais os viajantes se conectam com interesses específicos, como cultura, gastronomia ou música. Embora cerca de 40% dos viajantes tenham demonstrado interesse, a taxa de conversão mais baixa indica que as marcas ainda precisam comunicar melhor o valor dessas experiências.
Outro fenômeno relevante é o chamado “shipboard stranger effect”. Cerca de 55% dos viajantes relataram ter criado novas conexões durante a viagem, e 80% mantiveram essas relações posteriormente, evidenciando o papel dos cruzeiros como ambientes que favorecem interações sociais e experiências compartilhadas.
Por fim, a pesquisa aponta para uma crescente preferência por destinos menos conhecidos, à medida que os viajantes buscam experiências que os desafiem e contribuam para seu crescimento pessoal.
Implicações para marcas e destinos de cruzeiro
Essas transformações trazem implicações relevantes para a forma como marcas de cruzeiros e destinos abordam o engajamento com seus públicos.
Os resultados indicam que focar apenas nos atributos físicos de um destino ou nas características de um navio já não é suficiente. As marcas precisam comunicar o impacto mais amplo da viagem — como ela influencia identidade, relações e bem-estar a longo prazo.
Justin Gilbert enfatizou a importância de identificar as motivações mais profundas dos viajantes, incluindo gatilhos subconscientes ligados ao crescimento pessoal e à transformação.
Essa abordagem aponta para uma evolução nas estratégias de marketing e storytelling, em que destacar os resultados emocionais e transformadores da viagem se torna tão importante quanto apresentar a experiência em si.
Ao mesmo tempo, o setor de cruzeiros pode se beneficiar de suas características únicas — como itinerários imersivos e dinâmicas sociais a bordo — para criar ambientes que favoreçam esse tipo de engajamento mais profundo.
Perspectivas
As discussões desta sessão sugerem que o papel das viagens está se expandindo para além do lazer, assumindo uma dimensão mais ampla de desenvolvimento pessoal e conexão social.
À medida que as expectativas dos viajantes continuam evoluindo, marcas e destinos de cruzeiros precisarão adaptar suas estratégias — não apenas aprimorando experiências, mas também alinhando suas ofertas às motivações mais profundas que orientam as decisões de viagem.
Esses insights indicam que compreender como a viagem transforma os indivíduos pode se tornar um fator-chave na forma como a indústria se posicionará nos próximos anos.



