O Caribe ocupa o centro geográfico das Américas. Durante décadas, essa centralidade posicionou a região como um ponto de convergência do comércio marítimo. Hoje, em meio à fragmentação das cadeias globais de suprimentos e a uma nova recalibração comercial dos Estados Unidos, essa geografia volta a atrair atenção.
O anúncio de novas tarifas “recíprocas” pelos Estados Unidos em 2025 abalou a dinâmica do comércio global. Ao mesmo tempo, o Review of Maritime Transport 2024 da UNCTAD destacou como as disrupções climáticas no Canal do Panamá — incluindo a severa seca de 2023–2024 — aumentaram as distâncias de navegação em 31% e reduziram os trânsitos em cerca de 20%. Para muitas empresas, a vulnerabilidade das cadeias de suprimento de longa distância dependentes do canal tornou-se concreta.
Nesse contexto, o Caribe parece bem posicionado para capturar fluxos de nearshoring. A proximidade com os Estados Unidos, os acordos comerciais preferenciais e a expansão da infraestrutura portuária apontam para uma oportunidade clara. No entanto, abaixo da superfície existe uma realidade mais complexa.
Um ambiente logístico de alto custo
O paradoxo estrutural do Caribe é evidente: localização estratégica, mas estrutura econômica onerosa.
Segundo o relatório Caribbean Development Dynamics 2025 da OCDE, os custos logísticos na região representam entre 16% e 25% do PIB — muito acima da média da OCDE, de 9%. O mesmo relatório destaca a limitada concorrência nos serviços de transporte e entraves regulatórios como principais fatores que elevam esses custos.
O Review of Maritime Transport 2024 da UNCTAD observa ainda que os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) registraram uma queda de 9% na conectividade marítima na última década. Os custos de transporte refletem essa fragilidade estrutural. A Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe reportou que, em meados de 2024, transportar um contêiner de 40 pés de Miami para pequenos Estados insulares caribenhos custava quatro vezes mais do que enviá-lo para Argentina, Uruguai ou mesmo China.
As tarifas de movimentação portuária em várias jurisdições caribenhas são estimadas em duas a três vezes superiores às de instalações comparáveis globalmente, agravadas por gargalos de infraestrutura e ineficiências operacionais.
O nearshoring depende de confiabilidade, previsibilidade de custos e escala. Nesses critérios, o Caribe ainda enfrenta desafios estruturais significativos.
Os portos como eixo de transformação
Ainda assim, mudanças estão em curso — e são lideradas pelos portos.
Dados mostram que a República Dominicana captou 20 dos 28 projetos industriais greenfield monitorados entre os países membros da CAIPA entre 2020 e 2025. O país conta com uma rede de 92 zonas econômicas especiais que apoiam setores como ciências da vida, eletrônicos e vestuário. Segundo estatísticas disponíveis, as exportações de dispositivos médicos atingiram um recorde de US$ 1,9 bilhão em 2025, com 75% destinados aos Estados Unidos.
A expansão da infraestrutura é central nesse processo. Em maio de 2025, a República Dominicana assinou um memorando de entendimento com a DP World para um investimento de US$ 760 milhões na expansão do Porto de Caucedo e de sua zona franca adjacente. A DP World descreveu o investimento como uma medida para fortalecer a competitividade e diversificar a economia nacional.
A Jamaica também está reforçando seu perfil logístico. Uma expansão de US$ 80 milhões no Kingston Freeport Terminal aumenta a capacidade de armazenamento em mais de 25%. Belize está realizando uma ampliação portuária de US$ 200 milhões, enquanto a Guiana avança com o porto de Parika e o porto de águas profundas de Berbice para facilitar maiores fluxos de carga e integração comercial regional.
Esses movimentos refletem o que a UNCTAD identifica como uma necessidade urgente de modernização da infraestrutura e de investimento privado para reduzir lacunas de conectividade e fortalecer a resiliência na América Latina e no Caribe.
Os portos caribenhos já não se posicionam apenas como portas de entrada marítimas. Estão evoluindo para plataformas logísticas multimodais integradas a zonas francas, polos industriais e operações cada vez mais digitalizadas.
Vulnerabilidade climática: a restrição estrutural
A narrativa do nearshoring não pode ser dissociada da exposição climática.
O relatório de 2024 da UNCTAD ressalta que as mudanças climáticas se tornaram um fator de risco central para o comércio marítimo na região. A seca no Canal do Panamá evidenciou a fragilidade de infraestruturas marítimas críticas. De forma mais ampla, o Caribbean Development Dynamics 2025 estima que as perdas relacionadas ao clima na região equivalem, em média, a 2,13% do PIB por ano, enquanto o número de eventos climáticos aumentou 85% entre 2001 e 2020.
Para pequenas economias insulares altamente dependentes do transporte marítimo, essas vulnerabilidades impactam diretamente os custos comerciais, os prêmios de seguro e a viabilidade de longo prazo da infraestrutura.
A UNCTAD tem defendido maior financiamento para infraestrutura portuária resiliente ao clima e fortalecimento de capacidades na região. Sem adaptação sistemática, os ativos destinados a atrair fluxos de nearshoring podem tornar-se passivos estruturais.
O elo ausente: integração regional
Outra fragilidade estrutural reside na fragmentação intra-regional.
Segundo a avaliação regional de 2025 da OCDE, o comércio intra-caribenho representa apenas 6,7% do total dos fluxos comerciais, evidenciando a limitada integração econômica entre mercados vizinhos. Fragmentação regulatória, procedimentos aduaneiros inconsistentes e baixa concorrência no setor de transporte criam fricções mesmo em corredores de curta distância.
No Global Supply Chain Forum da UNCTAD realizado em Barbados em 2024, os participantes identificaram consolidação de cargas, coordenação regulatória e investimento em infraestrutura como passos fundamentais para reduzir ineficiências e aprofundar a conectividade regional.
Sem maior integração, o Caribe corre o risco de permanecer como um conjunto de nós logísticos isolados, em vez de um ecossistema integrado de cadeias de suprimento.
Janela de oportunidade ou teto estrutural?
A narrativa do nearshoring no Caribe apoia-se em bases sólidas: proximidade geográfica com os Estados Unidos, expansão portuária, acordos comerciais favoráveis como o US–CAFTA e crescimento visível do investimento estrangeiro direto em manufatura e logística.
Ao mesmo tempo, restrições estruturais permanecem relevantes. Como destacam UNCTAD e OCDE, altos custos logísticos, declínio da conectividade marítima para pequenos Estados, fragmentação regulatória e elevada vulnerabilidade climática continuam a limitar a competitividade.
A região encontra-se em um ponto estratégico de inflexão. Expansões portuárias e modernizações logísticas são concretas. Ecossistemas industriais estão crescendo, especialmente na República Dominicana. Operadores internacionais estão alocando capital.
Mas o nearshoring não é uma transformação automática. Trata-se de uma corrida competitiva que exige reformas sustentadas em eficiência de infraestrutura, coordenação regulatória e adaptação climática.
A vantagem geográfica do Caribe é indiscutível. Se ela se converterá em uma fronteira duradoura de nearshoring dependerá menos da localização e mais da execução estrutural nos próximos anos.



