Mais passageiros de cruzeiro estão chegando. Quem captura esses gastos?

Cruise

O Caribe/Bahamas/Bermudas permaneceu como a maior região de destino de cruzeiros do mundo em 2025, recebendo 16,27 milhões de passageiros de cruzeiro, um aumento de 8,4% em relação aos 15,01 milhões registrados no ano anterior. Isso representou mais de 1,25 milhão de visitantes adicionais em apenas um ano, com 44% dos passageiros de cruzeiro em todo o mundo navegando pela região.

Para os portos do Caribe, esse crescimento cria uma oportunidade evidente. Mas a questão comercial já não é simplesmente quantos passageiros podem ser recebidos. O desafio é saber com que eficiência cada escala pode ser convertida em gastos — e quanto desse valor permanece efetivamente no destino.

O volume de passageiros é apenas o primeiro KPI

O mais recente estudo comparável da FCCA/BREA, abrangendo 33 destinos do Caribe e da América Latina durante o ano de cruzeiros 2023/2024, estimou US$ 4,27 bilhões em gastos diretos relacionados aos cruzeiros. Os passageiros geraram US$ 3,07 bilhões a partir de 29,4 milhões de visitas em terra, com um gasto médio de US$ 104,36 por visita de passageiro.

Essa média regional esconde diferenças importantes. O gasto médio dos passageiros foi de US$ 120,93 nas Bahamas, US$ 84,95 em Santa Lúcia e US$ 82,39 em Antígua e Barbuda.

Essa diferença é relevante porque um passageiro que chega ao destino não se transforma automaticamente em um consumidor em terra. Entre os destinos pesquisados, a taxa média de desembarque dos passageiros em trânsito foi de 83%. O funil econômico, portanto, começa antes da primeira compra: os passageiros chegam, alguns desembarcam, alguns compram excursões ou produtos e, somente então, os gastos chegam às empresas do destino.

Os portos estão se aproximando da carteira dos passageiros

Nassau mostra como a estratégia de infraestrutura está respondendo a esse desafio.

Seu projeto de revitalização da orla, de US$ 300 milhões, ampliou a capacidade de atracação, mas também acrescentou mais de 60 estabelecimentos comerciais, opções de alimentos e bebidas, um museu dedicado ao Junkanoo, um anfiteatro e outros espaços comerciais e culturais. Em 8 de junho de 2026, o Nassau Cruise Port recebeu um recorde de 33.254 passageiros provenientes de seis navios em um único dia.

Um volume dessa magnitude torna o desafio comercial evidente. O cais gera o fluxo de visitantes; a oferta em terra determina quanto desse fluxo se transforma em gastos.

Antígua está adotando um modelo semelhante. Seu novo terminal de cruzeiros, construído especificamente para essa finalidade e inaugurado no início de 2026, foi projetado para fortalecer as operações de homeporting e turnaround. A atividade de cruzeiros já havia aumentado de 81.395 passageiros e 124 escalas em 2021 para 808.345 passageiros e 436 escalas em 2025.

O projeto mais amplo de Upland Development prevê a criação de aproximadamente 50.000 pés quadrados de espaços de varejo, alimentos e bebidas e outras áreas comerciais, incluindo oportunidades para empreendedores locais.

A lógica é simples: se os fluxos de passageiros puderem ser direcionados para produtos, serviços e experiências locais, os portos terão melhores condições de transformar o crescimento do tráfego em receita para o destino.

A conexão entre o porto e a cidade também importa

Capturar os gastos não significa necessariamente manter os passageiros dentro de uma zona comercial controlada pelo porto.

Santa Lúcia ilustra o outro lado dessa equação. O atual projeto do Saint Lucia Cruise Port inclui planos para uma nova Vendors Arcade, um Fishermen’s Village que dará prioridade aos vendedores locais e um calçadão destinado a melhorar a conectividade entre Pointe Seraphine e Castries.

Os dados da FCCA/BREA ajudam a explicar por que essa conexão física é importante. Durante o ano de cruzeiros 2023/2024, 757.795 passageiros de cruzeiro chegaram a Santa Lúcia e cerca de 646.400 — 85% — desembarcaram. Esses visitantes gastaram, em média, US$ 84,95 cada.

O tempo disponível também era limitado. Um grupo típico de passageiros de cruzeiro permanecia cerca de cinco horas em terra. Mais de sete em cada dez passageiros compraram uma excursão em terra, enquanto 57% realizaram pelo menos uma outra compra no destino. Excursões, relógios e joias, e vestuário representaram 81% dos gastos dos passageiros.

Para um destino, cinco horas representam uma janela comercial curta. A facilidade de circulação a pé, o transporte, a localização das lojas e atrações e a facilidade de deslocamento entre o porto e a cidade podem influenciar quanto os visitantes conseguem gastar nesse período.

Nem todos os passageiros representam a mesma oportunidade

Os números gerais de passageiros também podem ocultar diferentes modelos econômicos.

Um passageiro em trânsito pode passar apenas algumas horas em terra. Já um passageiro de homeport pode gerar traslados de aeroporto, diárias em hotéis, gastos em restaurantes, serviços de bagagem e atividades antes ou depois do cruzeiro, antes mesmo de o navio zarpar.

É por isso que a estratégia de homeporting de Antígua é relevante para além das operações do terminal. Seu novo terminal foi projetado especificamente para atividades de homeporting e turnaround, com potencial para ampliar a demanda relacionada aos cruzeiros para os setores de aviação, hospedagem e transporte terrestre.

Os tripulantes representam outro mercado. O mesmo vale para passageiros que exploram o destino de forma independente, em vez de participar de excursões organizadas. Portanto, simplesmente dividir o gasto total pelo número total de passageiros não permite identificar onde estão, de fato, as oportunidades comerciais mais relevantes.

O próximo KPI é o valor capturado localmente

O número de passageiros continuará sendo um indicador central para o planejamento portuário. O gasto por passageiro é uma métrica comercial mais relevante. Mas a próxima questão é mais difícil: quanto desse gasto se transforma em valor efetivamente retido na economia local?

Isso significa ir além do gasto bruto dos visitantes e analisar a propriedade local das empresas, o emprego, o fornecimento de bens e serviços, os impostos e a participação das empresas domésticas. Um destino pode registrar um elevado nível de gastos dos passageiros e, ainda assim, precisar compreender para onde o dinheiro flui depois que a transação é realizada.

O próprio setor está avançando em direção a formas mais detalhadas de mensuração. Em 2026, a Tourism Economics lançou uma nova série de estudos sobre o impacto dos cruzeiros em mais de 30 destinos do Caribe e da América Latina, incluindo trabalhos destinados a ajudar os destinos a compreender como maximizar os gastos de passageiros e tripulantes. Os primeiros resultados estão previstos para a FCCA Cruise Conference and Trade Show de 2027.

Os portos do Caribe continuarão competindo por navios e passageiros. Mas, com os volumes de cruzeiros na região ainda em expansão, outra competição está se tornando cada vez mais importante: transformar cada chegada em valor econômico sustentável em terra.

No fim, o destino de cruzeiros mais bem-sucedido talvez não seja aquele que recebe o maior número de passageiros, mas aquele que consegue fazer cada visita gerar o máximo de valor.

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