Uma análise baseada no relatório Amadeus Travel Dreams 2026 e nos insights compartilhados por organizações internacionais de gestão de destinos.
Entre as conclusões do relatório Amadeus Travel Dreams 2026, publicado no final de 2025, várias apresentam implicações claras — embora indiretas — para os atores da aviação na América Latina e no Caribe. A principal delas é a crescente convergência entre as estratégias de diversificação dos mercados emissores adotadas por muitas autoridades de turismo e a evolução das preferências de viagem de novos perfis de viajantes.
Realizado pela Opinium Research com 6.000 viajantes de lazer e negócios em seis grandes mercados globais (Austrália, China, Alemanha, Índia, Reino Unido e Estados Unidos), o estudo revela diferenças geográficas significativas nas expectativas dos viajantes. Quando questionados sobre a importância dos compromissos de sustentabilidade de um hotel, 93% dos entrevistados na Índia e 85% na China afirmaram que esses fatores influenciam suas decisões de reserva. O percentual cai para 65% tanto no Reino Unido quanto na Alemanha. Ainda mais relevante, os viajantes que valorizam a sustentabilidade afirmam estar dispostos a pagar, em média, 11,7% a mais por noite em acomodações que adotem práticas ambientais confiáveis. Entre os viajantes da Geração Z, essa disposição chega a 14,7%.
Outros resultados reforçam essa tendência. Ao serem questionados sobre o que esperam levar consigo após uma viagem, 18% dos entrevistados responderam “uma nova versão de mim mesmo: mais claro, mais leve e mais intencional”. Entre os viajantes chineses, esse percentual sobe para 39%. Ao descrever sua experiência ideal de destino, 32% afirmaram que ela corresponde ao momento em que “paro de olhar para o celular porque a vida real é mais interessante”, enquanto 41% disseram querer voltar para casa com “a mente renovada e o sistema nervoso mais tranquilo”.
Para os atores da aviação na região LAC, essas tendências convergentes apontam para uma oportunidade estratégica. Mercados asiáticos emergentes — especialmente Índia e China — não estão necessariamente em busca das mesmas experiências em destinos da América Latina e do Caribe que os viajantes europeus tradicionais procuraram durante décadas. Em vez disso, são cada vez mais motivados por transformação pessoal, imersão cultural profunda e reconexão com ambientes autênticos. Essa mudança estrutural na demanda pode abrir espaço para novas estratégias de conectividade aérea, parcerias interline mais direcionadas e posicionamentos de marca diferenciados para companhias aéreas capazes de captar esses fluxos de tráfego em evolução.
A oportunidade se encaixa em uma tendência mais ampla identificada pelo relatório. Diversas organizações de gestão de destinos entrevistadas pela Amadeus apontaram a diversificação dos mercados emissores e a resiliência diante da volatilidade macroeconômica como prioridades estratégicas. A Tourism Malaysia destacou os potenciais impactos de aumentos tarifários, pressões inflacionárias e da volatilidade dos preços do petróleo sobre a demanda por viagens. Já a Türkiye Tourism Promotion & Development Agency, por meio de seu diretor-geral Sinan Seha Türkseven, enfatizou a importância de manter uma estrutura adaptável, capaz de tomar decisões rapidamente, diversificar mercados emissores e sustentar a atividade turística ao longo de todo o ano.
Essas observações dialogam diretamente com os desafios enfrentados pelo setor de aviação regional. A capacidade de desenvolver rotas voltadas para novos mercados emissores, antecipar pressões de custos associadas aos preços da energia e oferecer produtos alinhados às expectativas de viajantes cada vez mais atentos à sustentabilidade está se tornando um importante fator de competitividade para companhias aéreas e autoridades aeroportuárias da América Latina e do Caribe.
O relatório também traz outra perspectiva relevante para o setor. Entre os 500 executivos hoteleiros entrevistados em nove países, todos afirmaram planejar investimentos em iniciativas de sustentabilidade em 2026, com gastos previstos equivalentes, em média, a 6,7% de suas despesas totais. Além disso, 35% identificaram a sustentabilidade como uma importante fonte de diferenciação competitiva. Esse nível de comprometimento na hotelaria inevitavelmente gera efeitos em toda a cadeia de valor das viagens. Viajantes que priorizam sustentabilidade tendem a esperar coerência entre os locais onde se hospedam e a forma como se deslocam. Para companhias aéreas e aeroportos da região LAC, isso significa dar maior destaque à comunicação de compromissos ambientais concretos, mensuráveis e devidamente documentados.
Um último dado merece atenção. Segundo o relatório, 38% dos hoteleiros apontaram a otimização para mecanismos de busca tradicionais e plataformas de inteligência artificial generativa como sua principal estratégia de geração de demanda para 2026. Paralelamente, 69% dos viajantes entrevistados afirmaram confiar em resumos gerados por IA a ponto de tomar decisões sem realizar pesquisas adicionais — percentual que sobe para 87% na Índia e 86% na China. Essa transformação dos canais de tomada de decisão afeta toda a indústria de viagens e exige que os atores da aviação regional repensem suas estratégias de visibilidade dentro dos ecossistemas de informação que estão moldando cada vez mais o comportamento do mercado.
As implicações são múltiplas e interligadas: diversificar mercados emissores, incorporar a sustentabilidade à proposta de valor e fortalecer a visibilidade institucional nos novos canais de informação. Nenhuma dessas prioridades é nova para os atores da aviação da região LAC. O que o estudo da Amadeus faz é confirmar tanto sua relevância quanto sua urgência em um momento em que estão sendo tomadas decisões estratégicas que moldarão a próxima geração de parcerias regionais.
Fonte dos dados estatísticos: Amadeus, Travel Dreams 2026: From data to delight, publicado no final de 2025. As declarações atribuídas à Tourism Malaysia e a Sinan Seha Türkseven (Türkiye Tourism Promotion & Development Agency) foram extraídas diretamente do relatório.



