ACI LAC QUITO: Além da infraestrutura, o que Quito revela sobre o aeroporto do amanhã

Os aeroportos estão redefinindo cada vez mais seu papel na economia global. Não sendo mais vistos apenas como infraestrutura projetada para movimentar aeronaves, passageiros e carga, eles estão evoluindo gradualmente para plataformas de logística, indústria e desenvolvimento urbano.

Esta transformação esteve no centro das discussões durante o ACI Airport Day Quito, realizado em 11 de março de 2026 e organizado pelo Conselho Internacional de Aeroportos – América Latina e Caribe (ACI-LAC) com o apoio da Corporación Quiport. O evento reuniu operadores aeroportuários, executivos de companhias aéreas e especialistas do setor para explorar temas que variam de cidades aeroportuárias e logística de carga à transformação digital em todo o ecossistema da aviação.

Em diversos painéis — de cidades aeroportuárias a carga aérea e estratégia de liderança — uma mensagem surgiu claramente: os aeroportos estão evoluindo muito além de seu papel tradicional como infraestrutura de transporte.

Aeroportos não são mais apenas infraestrutura

Um dos temas recorrentes do evento foi a necessidade de repensar como os aeroportos são percebidos. Em vez de visualizá-los apenas como instalações que movimentam aeronaves, passageiros e carga, vários palestrantes enfatizaram que os aeroportos atuam cada vez mais como motores de atividade econômica.

Em muitas partes do mundo, o conceito de “cidade aeroportuária” vem se desenvolvendo há anos, integrando atividades comerciais, imobiliárias e logísticas ao ambiente aeroportuário. Na América Latina, no entanto, essa mudança é mais recente. Nas últimas duas décadas, grande parte do foco da região esteve na modernização da infraestrutura aeroportuária — garantindo que as operações de aeronaves, o processamento de passageiros e a movimentação de carga funcionem de forma eficiente.

Agora que muitos aeroportos atingiram esse estágio de maturidade, os operadores começam a olhar para o próximo passo: desenvolver ecossistemas econômicos em torno do próprio aeroporto.

Exemplos apresentados durante o painel ilustraram como essa transformação já está em curso. Desenvolvimentos imobiliários vinculados a aeroportos, novas áreas comerciais e projetos de hospitalidade estão se tornando cada vez mais comuns. A mensagem foi clara: os aeroportos estão se posicionando gradualmente como plataformas de desenvolvimento para as regiões circundantes, não apenas nós de transporte.

Ecossistemas industriais estão surgindo em torno dos aeroportos

Além dos desenvolvimentos de varejo e comerciais, alguns aeroportos estão se tornando âncoras para clusters industriais.

Um dos exemplos mais marcantes discutidos foi o cluster aeroespacial desenvolvido em torno do Aeroporto Internacional de Querétaro, no México. O aeroporto foi inaugurado em 2004 e, apenas alguns meses depois, a chegada da fabricante aeroespacial Bombardier desencadeou a criação de um parque industrial de 83 hectares dentro da área aeroportuária.

Com o tempo, a região evoluiu para um importante centro de fabricação aeroespacial. Hoje, empresas em Querétaro produzem componentes estruturais de aeronaves, sistemas de trem de pouso, aviônicos e outros equipamentos aeroespaciais avançados. De acordo com a discussão no painel, a região tornou-se um dos destinos mais atraentes globalmente para o investimento estrangeiro direto aeroespacial.

O ecossistema se estende além da fabricação. Uma universidade pública especializada, dedicada inteiramente à educação aeroespacial, também foi criada dentro da zona aeroportuária para apoiar a indústria em crescimento. O resultado é uma combinação de indústria, educação e infraestrutura aeroportuária trabalhando juntas em um único ecossistema.

Para muitos operadores aeroportuários na região, este exemplo ilustra como os aeroportos podem servir como catalisadores para um desenvolvimento econômico mais amplo.

A carga está se tornando um pilar estratégico

Outra percepção fundamental das discussões foi a crescente importância estratégica da carga aérea.

Embora o frete aéreo represente apenas cerca de 1 % do comércio global em volume, ele responde por aproximadamente 30 % do comércio global em valor.

Esse desequilíbrio destaca a natureza de alto valor das mercadorias transportadas por via aérea — variando de produtos farmacêuticos a eletrônicos e produtos perecíveis — e explica por que a carga está se tornando cada vez mais central para as estratégias aeroportuárias.

A própria Quito oferece uma ilustração clara dessa tendência. Desde 2013, o Aeroporto Internacional Mariscal Sucre da cidade movimentou 2,8 milhões de toneladas de carga, atingindo um recorde de 406.754 toneladas em 2025.

O perfil da carga também é altamente especializado: cerca de 92 % das exportações correspondem a flores, tornando o aeroporto uma porta de entrada crucial para a indústria de floricultura do Equador.

Essa concentração destaca como os aeroportos podem se tornar profundamente inseridos nos setores econômicos regionais, ligando a produção local aos mercados globais.

O e-commerce está remodelando a logística aeroportuária

O rápido crescimento do e-commerce também está transformando as operações de carga aérea.

No Equador, os painelistas observaram que a carga de e-commerce representava cerca de 15 % dos volumes totais de carga em 2023, mas subiu para 35 % em 2025.

Essa mudança traz novos desafios operacionais. A logística do e-commerce exige tempos de processamento mais rápidos, cadeias de suprimentos mais ágeis e maior coordenação entre os atores em todo o ecossistema logístico.

Vários palestrantes enfatizaram a importância da colaboração entre companhias aéreas, terminais de carga, operadores logísticos e autoridades públicas. A digitalização também foi destacada como um facilitador fundamental. A integração de sistemas e o compartilhamento de dados em tempo real em toda a cadeia de suprimentos poderiam ajudar a melhorar a previsibilidade, otimizar recursos e reduzir gargalos nas operações de carga.

A colaboração definirá o aeroporto do futuro

Talvez a lição mais importante de Quito tenha sido que a infraestrutura por si só não é mais suficiente.

Os aeroportos dependem cada vez mais da cooperação com uma ampla gama de partes interessadas — incluindo municípios, governos nacionais, empresas de logística e companhias aéreas. Sem essa coordenação, mesmo a infraestrutura mais avançada não pode atingir seu pleno potencial.

O caso do aeroporto El Dorado, em Bogotá, ilustra essa dinâmica. O aeroporto movimenta quase 46 milhões de passageiros anualmente e cerca de 850.000 toneladas de carga, sustentando 33.000 empregos diretos e mais de 60.000 empregos no setor de aviação em toda a cidade.

Tal escala requer um planejamento integrado entre o aeroporto e o ambiente urbano circundante. As autoridades locais começaram, portanto, a incorporar o conceito de Bogotá Ciudad-Aeropuerto em planos de desenvolvimento urbano mais amplos.

Para os operadores aeroportuários em toda a América Latina, a mensagem é clara: a competitividade futura dependerá não apenas de investimentos em infraestrutura, mas também de governança, integração de dados e coordenação de longo prazo com instituições públicas.

Um novo papel para os aeroportos

Tomadas em conjunto, as discussões em Quito sugerem que o aeroporto de amanhã será muito diferente do aeroporto de ontem.

Em vez de simplesmente processar movimentos de aeronaves, os aeroportos estão se tornando plataformas multifuncionais — combinando hubs logísticos, clusters industriais, desenvolvimentos imobiliários e ecossistemas de inovação.

Para a América Latina e o Caribe, a transformação ainda pode estar em seus estágios iniciais. Mas, como demonstraram as conversas em Quito, a mudança já está em andamento.

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