À medida que a indústria da aviação avança em direção à meta de emissões líquidas zero de carbono até 2050, as companhias aéreas enfrentam o desafio de transformar compromissos climáticos globais em ações operacionais concretas. Na América Latina, onde a produção de Sustainable Aviation Fuel (SAF) ainda é limitada e persistem importantes lacunas de infraestrutura, essa transição apresenta desafios específicos.
Nesse contexto, o LATAM Airlines Group definiu uma estratégia climática que busca alinhar-se aos principais marcos internacionais de descarbonização da aviação, ao mesmo tempo em que considera as particularidades da América do Sul. Seu roteiro combina eficiência operacional, modernização da frota, combustíveis sustentáveis de aviação e iniciativas de remoção de carbono como parte do objetivo de alcançar emissões líquidas zero até 2050.
Alinhamento com os roteiros da ICAO e da IATA
A LATAM baseia explicitamente sua estratégia climática em dois importantes referenciais do setor: o Long-Term Aspirational Goal (LTAG) da International Civil Aviation Organization (ICAO) e os Net Zero Roadmaps da International Air Transport Association (IATA).
Adotado pelos Estados-membros da ICAO em 2022, o LTAG estabelece a ambição coletiva de que a aviação internacional alcance emissões líquidas zero de carbono até meados do século. O framework avalia diferentes combinações de tecnologias aeronáuticas, melhorias operacionais e combustíveis sustentáveis para identificar possíveis trajetórias de descarbonização.
Da mesma forma, os roteiros da IATA identificam os principais pilares necessários para a transição do setor, incluindo capacidade de produção de SAF, novas tecnologias aeronáuticas, ganhos de eficiência operacional, mecanismos de financiamento e políticas públicas de apoio.
Para a LATAM, esses frameworks servem como referência estratégica. No entanto, a companhia destaca a necessidade de adaptar as ambições globais às realidades regionais, especialmente na América Latina, onde o avanço do SAF e das políticas de transição energética ocorre em ritmos muito diferentes entre os países.
A eficiência operacional continua sendo o primeiro grande instrumento de redução
Antes que novas tecnologias e combustíveis alternativos alcancem uma implantação em larga escala, a eficiência operacional permanece como a fonte mais imediata de redução de emissões.
O Fuel Efficiency Program da LATAM, lançado em 2010, tornou-se um componente central de sua estratégia climática. Segundo a empresa, a iniciativa gerou ganhos de eficiência de aproximadamente 7% desde sua criação e evitou cerca de 5,6 milhões de toneladas de emissões de CO₂.
O programa reúne aproximadamente 50 iniciativas que abrangem tanto as operações em solo quanto as operações de voo.
Entre as medidas implementadas estão programas de redução de peso das aeronaves, análises avançadas para otimização de rotas, procedimentos de taxiamento com um único motor, programas de lavagem de motores e melhorias aerodinâmicas destinadas a reduzir o consumo de combustível em toda a rede da companhia.
Embora cada medida possa parecer incremental quando analisada isoladamente, em conjunto elas representam uma base fundamental para reduções de emissões que podem ser implementadas imediatamente e em larga escala na frota atual.
A renovação da frota como ponte para uma aviação de menor emissão
O segundo pilar da estratégia da LATAM é a modernização da frota.
A companhia continua ampliando a participação de aeronaves de nova geração, especialmente da família Airbus A320neo e do Boeing 787 Dreamliner. Segundo os fabricantes, essas plataformas podem proporcionar reduções de emissões entre 20% e 25% em comparação com modelos de gerações anteriores.
A LATAM projeta operar mais de 200 aeronaves de nova geração até 2030, representando mais da metade de sua frota total.
A empresa também incorporou tecnologias como o Aeroshark, um revestimento inspirado na pele de tubarão que melhora a performance aerodinâmica e pode reduzir as emissões em aproximadamente 1%.
Embora essas melhorias não sejam suficientes, por si só, para alcançar o Net Zero, elas ajudam a reduzir a lacuna de emissões enquanto o setor aguarda a maturação de tecnologias mais transformadoras, como aeronaves movidas a hidrogênio ou sistemas avançados de propulsão.
O SAF surge como o fator decisivo de longo prazo
Talvez o aspecto mais relevante da estratégia da LATAM seja a ênfase dada ao Sustainable Aviation Fuel.
Tanto a ICAO quanto a IATA identificam o SAF como o principal motor da descarbonização da aviação nas próximas décadas. O roteiro da IATA estima que o combustível sustentável poderá responder pela maior parte das reduções de emissões necessárias para que o setor alcance a meta Net Zero até 2050.
Reconhecendo essa importância, a LATAM e a Airbus financiaram conjuntamente um estudo independente conduzido pelo MIT Center for Sustainability Science and Strategy.
A pesquisa analisa trajetórias de descarbonização em seis grandes mercados latino-americanos — Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru — com foco especial nos cenários de implantação do SAF e nos marcos regulatórios necessários para apoiar o desenvolvimento da indústria.
A iniciativa reflete uma crescente percepção de que a descarbonização da aviação na América Latina dependerá não apenas dos compromissos assumidos pelas companhias aéreas, mas também da criação de ecossistemas regionais de SAF envolvendo governos, produtores de energia, aeroportos e investidores.
Sem capacidade adequada de produção, regulamentação favorável e cadeias de suprimentos competitivas, a adoção do SAF poderá continuar sendo um dos maiores obstáculos para as ambições Net Zero da região.
A remoção de carbono como medida complementar
A estratégia da LATAM também contempla iniciativas de remoção de carbono e soluções baseadas na natureza para lidar com emissões residuais que deverão permanecer difíceis de eliminar, mesmo em um cenário de neutralidade de carbono.
A companhia ressalta que essas iniciativas têm como objetivo complementar — e não substituir — as reduções diretas de emissões.
Sua abordagem concentra-se na conservação de ecossistemas, projetos de restauração ambiental e iniciativas de energia renovável em toda a região. Entre os programas destacados estão a iniciativa CO₂ BIO na região da Orinoquía colombiana e o programa “1+1 Offset to Conserve”, por meio do qual a LATAM iguala as compensações de carbono adquiridas por seus clientes corporativos.
A companhia argumenta que esses projetos podem contribuir simultaneamente para a gestão das emissões, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento das comunidades locais na América Latina.
Da ambição global à implementação regional
O roteiro climático da LATAM ilustra um desafio mais amplo enfrentado pela indústria da aviação: transformar compromissos globais de neutralidade de carbono em ações práticas no âmbito regional.
A estratégia de quatro pilares da companhia reflete de perto os caminhos identificados pela ICAO e pela IATA. No entanto, seu sucesso dependerá de fatores que vão muito além das operações das companhias aéreas. A renovação da frota e a eficiência operacional podem gerar reduções significativas no curto prazo, mas o ritmo de expansão da produção de SAF, o apoio regulatório e os investimentos na América Latina provavelmente determinarão se o setor conseguirá atingir seus objetivos de descarbonização de longo prazo.
Para os stakeholders da aviação em toda a região, a principal questão já não é se a transição ocorrerá, mas sim se o ecossistema de suporte conseguirá se desenvolver com rapidez suficiente para transformar o Net Zero em uma meta alcançável, e não apenas em uma aspiração distante.


