Mais de 30 destinos de cruzeiros no Caribe e na América Latina estão entrando em um novo ciclo de mensuração de impacto econômico. Liderada pela Tourism Economics, a iniciativa poderá oferecer a portos e autoridades de turismo um benchmark recorrente para avaliar não apenas a contribuição atual da atividade de cruzeiros, mas também como esse impacto evolui ao longo do tempo
Os primeiros estudos estão previstos para 2027 e serão atualizados a cada três anos. A iniciativa, portanto, vai além de um novo retrato regional dos gastos de passageiros e tripulantes. Ela poderá estabelecer uma referência consistente para destinos que precisam tomar decisões sobre desenvolvimento do setor de cruzeiros, infraestrutura e investimentos.
De um retrato regional a um benchmark recorrente
A Tourism Economics, empresa do grupo Oxford Economics, anunciou a nova série de estudos em abril. Mais de 30 destinos do Caribe e da América Latina serão contemplados, com análises concebidas para oferecer métricas consistentes, fundamentadas em referências globais, sobre a contribuição econômica do turismo de cruzeiros, sem deixar de considerar as prioridades específicas de cada destino.
A iniciativa também foi destacada na edição do segundo trimestre da Travel & Cruise Magazine, da FCCA, que aponta entre os objetivos da pesquisa o fortalecimento do planejamento estratégico, o apoio às decisões de investimento de longo prazo e uma melhor compreensão de como os destinos podem maximizar os gastos de passageiros e tripulantes.
A região já dispõe de uma base significativa de dados sobre o impacto econômico dos cruzeiros. O estudo mais recente da FCCA, realizado pela Business Research & Economic Advisors (BREA) e referente ao ano de cruzeiros 2023/2024, analisou 33 destinos e estimou em US$ 4,27 bilhões os gastos diretos gerados pelo turismo de cruzeiros.
Desse total, 29,4 milhões de visitas de passageiros em terra geraram US$ 3,07 bilhões, enquanto os gastos das tripulações somaram US$ 229,5 milhões e as companhias de cruzeiros desembolsaram outros US$ 968,3 milhões. A atividade sustentou aproximadamente 94.027 empregos e gerou US$ 1,27 bilhão em renda salarial nos destinos participantes.
A nova série da Tourism Economics parte, portanto, de uma base de mensuração já consolidada. A principal mudança está na perspectiva de transformar a análise regional de impacto econômico em um ciclo regular de mensuração a cada três anos.
Por que a comparabilidade dos dados é importante
O número de passageiros continua sendo um dos indicadores mais visíveis do desempenho do setor de cruzeiros. Estudos de impacto econômico, no entanto, permitem compreender de forma muito mais ampla o que essas chegadas efetivamente representam para a economia de um destino.
A análise anterior da FCCA/BREA combinou pesquisas com passageiros e tripulantes, gastos das companhias de cruzeiros, receitas portuárias e dados econômicos locais. Dessa forma, avaliou padrões de consumo juntamente com os efeitos sobre emprego e renda, em vez de considerar o volume de tráfego como único indicador de desempenho.
Esse nível de detalhamento permite identificar diferenças entre modelos de operação de cruzeiros que os números agregados de chegadas, por si só, não conseguem revelar.
No estudo de 2023/2024, por exemplo, um passageiro em trânsito gastou, em média, US$ 101,87 durante sua visita a um destino. Já os passageiros de operações de homeport registraram gastos significativamente maiores, à medida que hospedagem, transporte terrestre, alimentação e outras atividades realizadas antes e depois do cruzeiro passaram a fazer parte da equação. Considerando todo o estudo, o gasto médio dos passageiros foi de US$ 104,36 por visita em terra.
Para portos e autoridades de turismo, essas diferenças são relevantes ao avaliar se o crescimento deve vir de um maior número de escalas, navios de maior porte, operações de homeport, desenvolvimento comercial em terra ou de uma combinação diferente de produtos de cruzeiro.
A iniciativa da Tourism Economics busca conferir maior consistência a essa mensuração, preservando ao mesmo tempo a possibilidade de adaptar cada estudo às prioridades locais. A metodologia detalhada da série de 2027 ainda não foi publicada e, por isso, é cedo para determinar exatamente quais indicadores serão padronizados entre todos os destinos.
Os dados estão se tornando parte da estratégia de investimento
Essa questão ganha relevância à medida que o desenvolvimento do setor de cruzeiros passa a exigir decisões de investimento cada vez mais significativas.
Um destino que avalia a expansão de um terminal, melhorias no transporte, novas instalações para visitantes ou uma estratégia de homeport precisa compreender mais do que simplesmente quantos passageiros adicionais determinado investimento poderá acomodar. Os dados econômicos ajudam a formular uma segunda pergunta: que tipo de atividade econômica essa nova capacidade poderá gerar?
A Tourism Economics apresenta explicitamente os novos estudos como ferramentas para fortalecer o planejamento estratégico e subsidiar decisões de longo prazo relacionadas ao desenvolvimento do turismo e aos investimentos. A organização também trabalhará diretamente com os destinos para adaptar as análises às prioridades locais.
Isso não transforma um estudo de impacto econômico em um cálculo de retorno sobre investimento para cada projeto portuário. No entanto, uma base comparável de evidências pode oferecer a governos, autoridades portuárias e órgãos de turismo um ponto de partida mais sólido para a alocação de capital ou para avaliar se determinada estratégia de desenvolvimento está produzindo os resultados esperados.
O valor dessa abordagem aumenta quando o exercício é repetido ao longo do tempo.
Um estudo pontual estabelece uma linha de base. Uma análise recorrente pode começar a mostrar se a contribuição econômica, os padrões de consumo, o emprego e outros impactos mensurados estão evoluindo na mesma direção que o tráfego de cruzeiros e os investimentos realizados.
Um benchmark concebido para evoluir ao longo do tempo
A Tourism Economics e a FCCA também estão apoiando a criação de um novo FCCA Research Committee, que reunirá executivos de companhias de cruzeiros e representantes dos destinos para identificar prioridades de pesquisa e garantir que os estudos respondam às necessidades do setor. A FCCA coordenará o trabalho com os destinos parceiros e as companhias de cruzeiros associadas, enquanto a Tourism Economics ficará responsável pela análise econômica.
Os primeiros estudos deverão ser apresentados durante a FCCA Cruise Conference and Trade Show de 2027, com novas edições previstas a cada três anos. A Tourism Economics também afirma que esse trabalho complementará sua análise global de impacto econômico realizada para a Cruise Lines International Association.
Para os destinos do Caribe e da América Latina, o resultado mais relevante talvez não seja, portanto, mais um valor agregado sobre os gastos gerados pelo setor em toda a região. O principal avanço poderá estar na capacidade de acompanhar a evolução de cada economia local ligada aos cruzeiros a partir de uma referência consistente — e incorporar essas evidências às próximas decisões de investimento.
Fontes: FCCA Travel & Cruise Magazine, Q2 2026; Tourism Economics; FCCA/BREA 2024.




