À medida que os debates sobre overtourism continuam se intensificando em diversos destinos globais, a indústria de cruzeiros enfrenta questionamentos cada vez maiores sobre seu impacto social, sua visibilidade dentro das economias locais e a forma como sua presença é percebida pelas comunidades residentes.
Durante a Seatrade Cruise Global, a sessão “Welcome Ashore: Supporting Local Voices at the Heart of Cruise Tourism”, realizada em 13 de abril no Sunset Vista Salon, explorou como alguns destinos e empresários locais estão tentando transformar essa narrativa.
Em vez de concentrar a discussão em infraestrutura, volumes de passageiros ou desempenho comercial, o debate girou em torno de algo mais intangível, mas cada vez mais estratégico: a narrativa. Por meio da iniciativa Welcome Ashore, representantes do Alasca, da Grécia e das Bahamas argumentaram que as vozes das comunidades locais beneficiadas pelo turismo de cruzeiros frequentemente permanecem ausentes do debate público — e que esse desequilíbrio pode estar contribuindo para percepções negativas crescentes sobre o setor.
Das estatísticas ao storytelling
Um dos temas centrais da sessão foi a ideia de que os indicadores econômicos, por si só, já não são suficientes para defender o papel do turismo de cruzeiros nos destinos.
Segundo diversos participantes, embora a indústria destaque regularmente números de passageiros, gastos e empregos gerados, esses indicadores muitas vezes não conseguem mostrar como a atividade de cruzeiros sustenta concretamente a vida cotidiana das comunidades locais.
Ian Dempster, fundador da Sitka Nuts e embaixador do Welcome Ashore no Alasca, explicou como essa percepção influenciou a resposta local às iniciativas que buscavam restringir o turismo de cruzeiros em Sitka. Em vez de depender exclusivamente de estatísticas, os defensores da atividade passaram a apostar mais em histórias pessoais.
Como destacou Ian Dempster, “você não vê o impacto na comunidade até que saíamos para contar essas histórias”.
Essas narrativas iam além dos próprios negócios turísticos, mostrando como a receita sazonal gerada pelos cruzeiros ajudava a financiar escolas, centros comunitários e organizações sem fins lucrativos na região.
As discussões sugerem que o storytelling local está sendo cada vez mais visto como uma ferramenta estratégica de comunicação destinada a humanizar o impacto econômico do turismo de cruzeiros.
Reposicionando o turismo de cruzeiros em nível comunitário
A própria iniciativa Welcome Ashore reflete um esforço mais amplo para reposicionar a relação entre a indústria e as comunidades locais.
Apresentada como um “movimento centrado na comunidade”, a plataforma busca amplificar as vozes de moradores, empreendedores e atores locais que dependem diretamente do turismo de cruzeiros.
Para Anastasios Konstantaros, embaixador da Grécia e CEO da Rhodes Tourism Promotion Organization, isso exige integrar uma ampla variedade de atores locais nas discussões sobre gestão dos destinos — de guias turísticos e motoristas de ônibus a donos de restaurantes e hoteleiros.
Seus comentários também refletiram a crescente complexidade de equilibrar crescimento turístico e qualidade de vida local, especialmente em destinos altamente sazonais como Rodes.
“É fácil trazer o maior número possível de turistas, mas é difícil gerenciá-los depois”, observou, alertando que as percepções negativas em torno do overtourism frequentemente surgem de uma má gestão dos fluxos turísticos, e não do turismo em si.
Essa visão aponta para um desafio mais amplo enfrentado por muitos destinos de cruzeiro: manter o apoio das comunidades locais enquanto o turismo continua crescendo.

Economias locais e o desafio da visibilidade
Outro tema importante abordado foi a visibilidade — ou invisibilidade — da contribuição do turismo de cruzeiros para as economias locais.
Em Nassau, onde os volumes turísticos são particularmente elevados, Pepin Argamasilla, Managing Partner da John Watling’s Distillery, explicou que os negócios locais vêm se enxergando cada vez mais como parte de um ecossistema territorial integrado, e não como atrações isoladas.
Em vez de tentar reter os visitantes em um único local, ele enfatizou a importância de incentivar a exploração de toda a comunidade.
“Todos nós compartilhamos uma única marca: as Bahamas”, afirmou, destacando a necessidade de distribuir os visitantes entre instituições culturais, restaurantes e pequenos negócios independentes.
Essa abordagem sugere que a competitividade dos destinos poderá depender cada vez mais da colaboração entre os atores locais, em vez da competição direta pelos gastos dos passageiros.
Ao mesmo tempo, vários participantes reconheceram que muitas dessas dinâmicas locais ainda permanecem pouco compreendidas fora das próprias comunidades de destino.
Turismo de cruzeiros e aceitação social
Além dos argumentos econômicos, a sessão também revelou uma crescente percepção dentro da indústria de que o futuro do turismo de cruzeiros pode depender fortemente da aceitação social.
As referências a Barcelona, à saturação turística e às narrativas negativas da mídia demonstraram como a percepção pública pode rapidamente influenciar debates políticos e regulatórios sobre a atividade de cruzeiros.
Em resposta, o Welcome Ashore parece se posicionar como um contraponto a essas narrativas, incentivando moradores e empresários locais a expressarem publicamente os benefícios que associam ao turismo de cruzeiros.
Para Dempster, isso exige uma participação visível e ativa das próprias comunidades. “Às vezes basta uma única pessoa para iniciar um movimento”, afirmou, descrevendo a iniciativa como uma oportunidade para que vozes locais se organizem em torno de interesses compartilhados.
Ao mesmo tempo, as discussões também revelaram uma realidade mais delicada: quanto mais intenso se torna o debate sobre overtourism, mais importante parece ser para os destinos demonstrar que o crescimento turístico continua alinhado às prioridades locais e à qualidade de vida dos moradores.
Perspectivas
As discussões em torno do Welcome Ashore sugerem que a indústria de cruzeiros está entrando em uma nova fase na forma como comunica seu papel dentro dos destinos.
Embora o impacto econômico continue central, a conversa parece estar migrando gradualmente para questões de visibilidade, percepção e legitimidade comunitária. Nesse contexto, o storytelling local deixa de ser apenas uma ferramenta de marketing e passa a integrar um esforço mais amplo para fortalecer a aceitação social do turismo de cruzeiros.
Para destinos, operadores de cruzeiros e negócios locais, essa evolução pode indicar que o futuro do desenvolvimento do setor dependerá não apenas da capacidade de atrair visitantes, mas também de garantir que as comunidades locais continuem percebendo valor em recebê-los em terra.



