A indústria do turismo no Caribe começa a falar sobre limites

Durante décadas, o crescimento do turismo no Caribe seguiu uma lógica conhecida: aumentar o número de visitantes, expandir a capacidade hoteleira, atrair mais investimentos e fortalecer a conectividade aérea. Porém, durante a Sustainable Tourism Conference 2026 da Caribbean Tourism Organization (CTO), realizada em Belize, uma conversa sensivelmente diferente começou a surgir.

Ao longo das discussões ministeriais, líderes do turismo voltaram repetidamente a temas que, até pouco tempo atrás, tinham pouca visibilidade nos fóruns regionais do setor: capacidade de carga, superlotação, pressão sobre infraestrutura, acesso ao litoral, pressão imobiliária e o equilíbrio de longo prazo entre crescimento turístico e qualidade de vida das comunidades locais.

A mudança foi sutil, mas significativa. Sem questionar o turismo em si, vários destinos começaram a questionar a ideia de que o crescimento ilimitado deve continuar sendo o principal objetivo da indústria.

Do crescimento turístico ao equilíbrio turístico

Um dos sinais mais claros veio de Saint-Martin.

Durante os debates ministeriais, o representante do turismo do território reconheceu abertamente as tensões que muitos destinos insulares enfrentam atualmente: os governos desejam manter altos volumes de visitantes e atividade econômica durante todo o ano, enquanto os moradores sentem cada vez mais a pressão sobre praias, estradas e espaços públicos.

Esse tipo de discurso ainda é relativamente incomum nas conversas oficiais sobre turismo na região.

A discussão tornou-se ainda mais marcante quando Saint-Martin explicou como a reconstrução após o furacão Irma levou o território a repensar seu modelo de desenvolvimento turístico. Em vez de reconstruir apostando em um turismo de massa de maior escala, as autoridades descreveram uma abordagem mais controlada, centrada em resiliência, adaptação da infraestrutura e hospitalidade em menor escala.

O território pretende agora manter um limite aproximado de 3.500 unidades de hospedagem no lado francês da ilha, incluindo hotéis boutique, propriedades Airbnb e outros formatos de acomodação.

“Decidimos que queremos uma indústria hoteleira menor, voltada para o modelo boutique, e não uma indústria de turismo de massa”, afirmou o representante de Saint-Martin durante o painel.

Para uma região historicamente focada em ampliar sua capacidade turística, a declaração representa uma mudança significativa de mentalidade.

O debate sobre capacidade de carga torna-se mais visível no Caribe

Diversas discussões ao longo da STC 2026 sugeriram que os destinos caribenhos estão começando a enfrentar as mesmas questões que hoje moldam os debates turísticos em nível global:

  • quanto turismo é excessivo;
  • como medir a capacidade de um destino;
  • e quem realmente se beneficia do crescimento turístico?

Para destinos insulares, essas questões ganham ainda mais peso.

A disponibilidade de terras é limitada. Os ecossistemas costeiros são frágeis. As redes de infraestrutura são concentradas. A exposição climática é elevada. E a pressão turística costuma se tornar visível muito mais rapidamente do que em grandes destinos continentais.

O ministro de Belize responsável pelo desenvolvimento sustentável reconheceu que alguns atrativos turísticos já haviam sofrido com excesso de uso antes de se recuperarem durante a desaceleração provocada pela pandemia.

Essa experiência parece ter reforçado uma preocupação regional mais ampla: o crescimento do turismo não pode ser dissociado indefinidamente da capacidade ambiental dos territórios.

Belize defende um modelo turístico de menor densidade

Ao longo da conferência, Belize posicionou-se como um destino favorável a um desenvolvimento turístico de menor escala, baseado na propriedade local e na preservação ambiental.

O ministro do Turismo, Anthony Mahler, destacou que Belize possui aproximadamente 1.200 propriedades turísticas para cerca de 12 mil quartos no total — uma média de aproximadamente 10 quartos por empreendimento.

“Isso por si só favorece a propriedade local. Isso por si só favorece a sustentabilidade”, afirmou.

O país enfatizou repetidamente o ecoturismo, o envolvimento comunitário e a imersão cultural, em vez da expansão de grandes resorts de alta densidade. As autoridades de Belize também destacaram que políticas de sustentabilidade só têm valor se forem efetivamente implementadas na prática, e não apenas deixadas “na prateleira”.

Esse modelo contrasta com as estratégias de grandes resorts historicamente associadas a partes da indústria turística caribenha.

A pressão turística já não é apenas uma questão ambiental

Outro aspecto marcante das discussões foi a forma como a sustentabilidade passou a ser tratada não apenas como uma questão ambiental, mas cada vez mais como um tema territorial e social.

Os participantes relacionaram o desenvolvimento turístico a questões como:

  • pressão imobiliária;
  • acesso ao litoral;
  • planejamento de infraestrutura;
  • gestão de resíduos;
  • propriedade da terra;
  • e participação das comunidades locais.

Ao final do debate ministerial, o ministro do Desenvolvimento Sustentável de Belize, Orlando Habet, levantou preocupações sobre a gentrificação costeira e a distribuição da riqueza gerada pelo turismo. Ele descreveu situações em que proprietários locais venderam terrenos costeiros para investidores externos e posteriormente perderam o acesso às mesmas áreas litorâneas. “Então, quem realmente está se beneficiando?”, questionou.

A pergunta refletiu um tema mais amplo que percorreu discretamente toda a STC 2026: os futuros modelos turísticos poderão ser avaliados não apenas pelo número de visitantes, mas pela forma como o valor gerado pelo turismo circula dentro das comunidades locais.

Uma fase mais madura do desenvolvimento turístico caribenho?

As discussões em Belize não indicaram que os destinos caribenhos desejam menos visitantes. O turismo continua sendo economicamente central para grande parte da região.

O que parece estar mudando, porém, é a própria definição do que significa crescimento turístico bem-sucedido.

Em vez de focar exclusivamente em volume, os formuladores de políticas passaram a enfatizar cada vez mais:

  • resiliência;
  • criação de valor;
  • recuperação ambiental;
  • capacidade de infraestrutura;
  • participação local;
  • e equilíbrio territorial de longo prazo.

Nesse sentido, a STC 2026 poderá ser lembrada menos como uma conferência sobre sustentabilidade e mais como um sinal de que parte da indústria turística caribenha começa a reconhecer uma realidade mais complexa: para muitos destinos insulares, o futuro do turismo poderá depender tanto de limites e equilíbrio quanto da continuidade do crescimento.

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