À medida que a indústria da aviação busca caminhos realistas para alcançar a neutralidade de carbono até 2050, uma publicação da ALTA em parceria com a ICF sugere que a América Latina e o Caribe podem possuir um ativo ainda subestimado no esforço global de descarbonização: os mercados de carbono.
Embora grande parte das discussões sobre sustentabilidade na aviação esteja concentrada no Sustainable Aviation Fuel (SAF) e na modernização das frotas, o relatório argumenta que o capital natural da região pode posicioná-la como uma das principais fornecedoras de créditos de carbono nas próximas décadas. Com marcos regulatórios adequados e projetos confiáveis, os mercados de carbono podem se tornar um componente importante da estratégia de transição do setor aéreo.
Uma região com importantes ativos naturais
Segundo o estudo, a América Latina e o Caribe respondem por apenas 6,7% das emissões globais de CO₂. Ao mesmo tempo, a região abriga alguns dos ecossistemas naturais mais extensos do planeta, incluindo florestas tropicais, áreas úmidas e territórios ricos em biodiversidade, capazes de sustentar projetos de carbono baseados na natureza em larga escala.
Essa combinação confere à região uma posição diferenciada no cenário global da descarbonização. Em vez de depender exclusivamente de soluções tecnológicas, ela também pode se beneficiar de sua capacidade de gerar créditos de carbono por meio de iniciativas de conservação, restauração ambiental e uso sustentável da terra.
Para a ALTA, trata-se de uma vantagem competitiva potencial que merece maior atenção nas discussões sobre o caminho da aviação rumo à neutralidade de carbono.
O mercado global de créditos de carbono ganha impulso
O relatório destaca o crescimento recente da emissão de créditos de carbono em escala mundial.
Entre 2020 e 2024, a oferta global de créditos de carbono aumentou 23%, refletindo o interesse crescente de governos, empresas e setores econômicos em mecanismos capazes de lidar com emissões residuais. Os mercados de carbono vêm assumindo um papel cada vez mais relevante nas estratégias climáticas, especialmente em setores nos quais a eliminação total das emissões ainda enfrenta barreiras tecnológicas ou econômicas.
A aviação está entre esses setores. Embora as companhias aéreas continuem investindo na renovação de frotas, na eficiência operacional e no uso de SAF, o estudo observa que os mercados de carbono deverão permanecer como parte do conjunto de soluções necessárias para atingir os objetivos climáticos de longo prazo.
Uma participação potencial de 25% do mercado global
Uma das projeções mais relevantes do relatório diz respeito ao papel futuro da América Latina e do Caribe na geração de créditos de carbono.
A ALTA estima que a região poderá representar aproximadamente 25% do mercado global de créditos de carbono até 2050 por meio de soluções baseadas na natureza. Uma posição desse porte daria à região um papel significativo no apoio aos esforços globais de descarbonização, ao mesmo tempo em que criaria novas oportunidades econômicas associadas à valorização dos ativos ambientais.
Para os atores da aviação, isso poderia significar acesso a mecanismos de redução de emissões geograficamente mais próximos e potencialmente mais alinhados às prioridades de desenvolvimento regional.
A conclusão também reforça um dos principais argumentos do relatório: a América Latina e o Caribe não devem simplesmente importar modelos de descarbonização desenvolvidos em outras regiões, mas construir estratégias apoiadas em suas próprias vantagens estruturais.
O desafio da credibilidade e da regulamentação
O estudo também alerta que transformar esse potencial em realidade exigirá mais do que recursos naturais abundantes.
A ALTA identifica a padronização regulatória e a credibilidade dos projetos como desafios fundamentais para o desenvolvimento de mercados de carbono eficazes. Investidores, companhias aéreas e compradores internacionais exigem cada vez mais metodologias transparentes, processos robustos de verificação e estruturas claras de governança que garantam benefícios climáticos mensuráveis.
Sem essas salvaguardas, a confiança do mercado pode ser comprometida, limitando a capacidade dos projetos regionais de atrair investimentos de longo prazo.
O relatório argumenta, portanto, que autoridades públicas, organizações ambientais, instituições financeiras e atores do setor privado terão um papel importante no fortalecimento da credibilidade das futuras iniciativas ligadas aos mercados de carbono.
Mais do que compensação: uma oportunidade estratégica para a região
O estudo ALTA-ICF não apresenta os mercados de carbono como uma solução isolada para a descarbonização da aviação. Em vez disso, posiciona-os ao lado da modernização das frotas, dos ganhos de eficiência operacional e da expansão do SAF como parte de um portfólio mais amplo de ações.
No entanto, o relatório sugere que os mercados de carbono oferecem algo que poucas outras soluções podem proporcionar: um caminho capaz de alinhar os objetivos de redução de emissões às características naturais e econômicas da própria região.
À medida que o setor aéreo avança rumo à meta de emissões líquidas zero até 2050, a América Latina e o Caribe podem descobrir que uma de suas maiores vantagens não está apenas na tecnologia aeronáutica ou na inovação em combustíveis, mas também nos ecossistemas que há muito tempo definem a identidade da própria região.


