Durante décadas, as redes aéreas internacionais do Caribe de língua inglesa foram estruturadas principalmente em torno da América do Norte, da Europa e das viagens intracaribenhas. Apesar da proximidade geográfica, a América Latina desempenhou um papel mais limitado, com grande parte do continente tradicionalmente acessada por meio de hubs de conexão, em vez de uma ampla rede de voos sem escalas.
A Jamaica está agora testando um modelo diferente.
As chegadas de visitantes latino-americanos à Jamaica alcançaram 58.797 em 2025, ante 35.252 em 2024 e 31.152 em 2023 — um aumento de quase 88% em dois anos. As receitas do turismo provenientes desse mercado mais que dobraram no mesmo período, passando de mais de US$ 55 milhões em 2023 para US$ 116 milhões em 2025.
Os volumes continuam modestos em comparação com os principais mercados emissores da Jamaica. No entanto, a combinação entre o crescimento da demanda e a nova capacidade direta indica que determinados corredores latino-americanos estão se tornando cada vez mais relevantes para as redes aeroportuárias do Caribe.
A Jamaica está desenvolvendo ligações diretas com a América do Sul
Essa mudança ocorreu de forma gradual.
A LATAM retomou a rota Lima–Montego Bay em dezembro de 2024, restabelecendo uma conexão direta entre a Jamaica e o Peru e, ao mesmo tempo, oferecendo aos passageiros acesso à rede mais ampla da LATAM via Lima. Em julho de 2025, Copa Airlines e LATAM ofereciam, juntas, mais de 10.000 assentos por mês para a Jamaica a partir da América Latina, volume que as autoridades jamaicanas classificaram como um recorde histórico de conectividade com a região.
A Colômbia acrescentou, em seguida, uma nova dimensão a essa expansão
A Wingo lançou Bogotá–Montego Bay e, posteriormente, em 23 de junho de 2026, Medellín–Montego Bay. O serviço de Medellín opera três vezes por semana e oferece 31.992 assentos por ano. O voo inaugural transportou 121 passageiros. A Wingo posiciona a rota tanto como uma ligação para o turismo receptivo quanto como uma nova opção direta para jamaicanos que desejam viajar para Medellín.
A atual malha do Sangster International Airport inclui Bogotá e Medellín com a Wingo, além de suas outras conexões com a América Latina.
O que torna essa evolução particularmente significativa é o fato de as rotas representarem diferentes modelos de conectividade: Panamá como um hub continental consolidado, Lima como mercado de origem e, ao mesmo tempo, porta de entrada para a América do Sul, e Bogotá e Medellín como mercados colombianos cada vez mais capazes de sustentar serviços diretos.
O Panamá não está sendo substituído
O surgimento de mais serviços sem escalas para a América do Sul não significa que o modelo tradicional baseado no Panamá esteja se tornando obsoleto.
A Copa continua conectando Kingston e Montego Bay a Panama City, de onde os passageiros podem acessar sua ampla rede nas Américas. Grand Cayman também mantém sua própria ligação sem escalas com o Panamá por meio da Cayman Airways, operada duas vezes por semana, com frequências adicionais durante o verão de 2026 para atender viagens de lazer, negócios e conexões para outros destinos latino-americanos.
Os dados mais amplos do mercado reforçam a importância contínua do Panamá. Em agosto de 2026, a Copa oferecia quase 1,97 milhão de assentos em sua rede, um aumento de 16,7% em relação ao ano anterior. A capacidade aérea total do Panamá cresceu 11,5%, enquanto Panama City Tocumen registrou crescimento de 12,3%.
A lógica econômica dos hubs continua sendo particularmente valiosa para os mercados caribenhos, pois permite às companhias aéreas combinar passageiros provenientes de cidades que, individualmente, talvez não gerassem demanda suficiente para sustentar um serviço sem escalas próprio.
As novas rotas, portanto, acrescentam uma segunda camada em vez de substituir a primeira: a conectividade via hubs permanece forte, enquanto determinados mercados ponto a ponto começam a emergir.
Demanda e capacidade começam a se reforçar mutuamente
A Jamaica identificou Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru como mercados emissores latino-americanos prioritários. Em fevereiro de 2026, as autoridades de turismo do país informaram que os serviços regulares provenientes de Panama City, Lima e Bogotá apresentavam fatores de ocupação dentro ou acima das metas estabelecidas, embora dados detalhados por companhia aérea não tenham sido divulgados.
A Colômbia é particularmente interessante porque a Wingo introduz uma proposta low-cost ao lado dos modelos já consolidados de conectividade via hub e das companhias tradicionais.
Isso acompanha uma transformação mais ampla na aviação latino-americana. As companhias low-cost representavam 38% da capacidade regional em agosto de 2026 e aumentaram sua oferta de assentos em 3,8% na comparação anual, crescendo mais rapidamente do que as companhias tradicionais.
Para a Jamaica, a oportunidade também não se limita ao turismo receptivo. A Wingo posiciona explicitamente Medellín como um destino acessível aos viajantes jamaicanos para fins culturais e de negócios.
Isso não demonstra que exista um equilíbrio de tráfego nos dois sentidos. No entanto, mostra que a proposta comercial vai além de simplesmente transportar turistas latino-americanos para Montego Bay.
O que isso muda para os aeroportos do Caribe?
Para os aeroportos, a implicação mais imediata é a diversificação.
A América Latina não precisa substituir a América do Norte ou a Europa para adquirir valor estratégico. O tráfego adicional pode diversificar o portfólio de companhias aéreas, os perfis de passageiros e a exposição geográfica, além de criar novas oportunidades de receitas no terminal e de desenvolvimento de rotas.
Mas a recente expansão da Jamaica não deve ser interpretada como evidência de um boom em toda a região.
Dados da OAG para agosto de 2026 mostram que a capacidade aérea total da América Latina cresceu 2% em relação ao ano anterior, alcançando 52,4 milhões de assentos, enquanto a capacidade internacional caiu 2,9%. A capacidade entre a América Latina e o Caribe recuou 4,7%, o equivalente a aproximadamente 206.700 assentos a menos do que em agosto de 2025.
Isso torna o desenvolvimento da Jamaica mais seletivo — e, possivelmente, mais instrutivo.
Os dados sugerem que o crescimento pode estar se concentrando em corredores específicos, nos quais a demanda turística, a estratégia das companhias aéreas, os preços e a conectividade via hubs estão alinhados, em vez de se distribuir uniformemente pelo Caribe.
Bogotá, Lima e Panama City são particularmente relevantes nesse contexto. Em agosto de 2026, estavam entre os dez maiores aeroportos da América Latina em capacidade, com Bogotá registrando 2,48 milhões de assentos, Lima 1,50 milhão e Panama City 1,20 milhão.
Conectar destinos caribenhos a esses aeroportos proporciona acesso não apenas à demanda local, mas potencialmente a redes continentais muito mais amplas.
Onde podem surgir as próximas oportunidades?
Vários mercados do Caribe de língua inglesa ainda possuem acesso limitado por voos sem escalas à América Latina continental. Mas a proximidade, por si só, não torna uma rota viável.
As oportunidades mais promissoras provavelmente estarão nos mercados em que os passageiros já viajam indiretamente via Panamá, Miami ou outros hubs, criando uma base de demanda existente que as companhias aéreas podem avaliar antes de alocar aeronaves a um serviço sem escalas.
É por isso que o caso jamaicano é relevante para além da própria Jamaica.
Ele mostra como um aeroporto caribenho pode combinar uma relação consolidada com um hub e rotas diretas cada vez mais direcionadas, em vez de precisar escolher entre os dois modelos.
É pouco provável que a América Latina substitua a América do Norte ou a Europa como principal mercado internacional do Caribe de língua inglesa. E não precisa fazê-lo.
Seu valor estratégico está na diversificação — e na identificação dos corredores específicos em que a demanda já atingiu escala suficiente para sustentar uma conectividade direta de forma sustentável.
A questão já não é simplesmente saber se existe demanda latino-americana. É identificar onde essa demanda se tornou grande o suficiente para justificar a próxima rota sem escalas.




