Na Seatrade Cruise Global, a evolução das experiências de cruzeiro está se estendendo cada vez mais para além do próprio navio. Durante a sessão “Reimaginando as excursões em terra: inovação, escala e a próxima experiência do hóspede”, realizada em 13 de abril no Sunset Vista Salon, líderes do setor exploraram como as excursões em terra estão passando por uma transformação estrutural.
Reunindo operadoras de cruzeiros, fornecedores de passeios e especialistas em destinos, a discussão sugere que as excursões em terra estão se afastando de modelos padronizados e orientados por volume, em direção a abordagens mais personalizadas, guiadas pela experiência e orientadas a valor. Essa mudança reflete transformações mais amplas nas expectativas dos viajantes, nas realidades operacionais e na crescente complexidade dos ecossistemas de destinos.
Os limites dos modelos tradicionais de excursões
Uma mensagem central que emerge da discussão é que o modelo tradicional de excursões em terra está chegando ao seu limite.
Leyla Oner, copresidente e CEO da Tura Turizm, destacou uma mudança fundamental na forma como os hóspedes avaliam as excursões. Em vez de comparar passeios com outros passeios, os viajantes estão cada vez mais usando como referência seus próprios estilos de vida e expectativas.
Essa evolução eleva significativamente o nível de exigência para operadoras e destinos, exigindo um padrão mais alto de qualidade, autenticidade e relevância.
Ao mesmo tempo, dados compartilhados durante a sessão sugerem que as taxas de participação em excursões podem estar sob pressão, com aproximadamente 32% dos passageiros participando de excursões no total, em comparação com cerca de 55% nos segmentos premium.
Esses números apontam para uma lacuna crescente entre oferta e expectativas, reforçando a necessidade de repensar como as excursões são concebidas e entregues.
Personalização e alinhamento com a marca no centro
Em resposta a essas mudanças, a personalização está emergindo como um pilar central da estratégia de excursões em terra.
Os participantes do painel enfatizaram que os viajantes de hoje esperam experiências sob medida, seja por meio de formatos em pequenos grupos, arranjos privados ou ofertas temáticas curadas. Justin Poulsen, Head de Planejamento de Itinerários e Experiências em Terra na Explora Journeys, observou que o setor está se afastando de um modelo baseado em volume para um focado na criação intencional de valor, no qual cada experiência é desenhada tendo em mente um perfil específico de hóspede.
Essa abordagem exige um entendimento mais profundo das preferências, comportamentos e motivações dos hóspedes — não apenas para entregar experiências relevantes, mas também para garantir que as excursões estejam alinhadas à identidade mais ampla de cada marca de cruzeiro.
Como Leyla Oner apontou, as excursões devem refletir o posicionamento, a linguagem e a promessa da marca, estendendo de forma eficaz a experiência a bordo para o próprio destino.
A experiência como narrativa e conexão emocional
Além da personalização, a discussão destacou a crescente importância da narrativa e do engajamento emocional.
Virginia Quintairos, diretora-geral da Intercruises Shoreside & Port Services, enfatizou que excursões diferenciadas são construídas em torno de narrativa e conexão, e não apenas de logística. Criar experiências significativas exige investimento em design, conteúdo e interpretação — de tours conduzidos por especialistas a encontros culturais imersivos.
Da mesma forma, os participantes do painel ressaltaram o papel de guias e facilitadores locais na entrega dessas experiências, observando que a interação humana continua sendo um fator-chave de satisfação dos hóspedes.
Essa mudança sugere que as excursões estão sendo avaliadas cada vez mais não apenas pelo que os hóspedes fazem, mas por como se sentem e pelo que levam da experiência.
Destinos como ecossistemas de colaboração
Outro tema importante é o papel crescente dos destinos na formação das experiências de excursão.
Os participantes do painel descreveram uma mudança de relações transacionais — envolvendo companhias de cruzeiro, operadoras de turismo e prestadores de serviços — para abordagens mais amplas, baseadas em ecossistemas. Leyla Oner destacou que os destinos agora envolvem uma ampla gama de partes interessadas, de empresas e comunidades locais à sociedade civil e instituições públicas, todas contribuindo para a experiência geral do visitante.
Essa perspectiva foi reforçada por Justin Poulsen, que enfatizou a importância de alinhar as partes interessadas em torno de uma visão compartilhada para o destino, incluindo seu posicionamento, público-alvo e objetivos de longo prazo.
Esse alinhamento parece cada vez mais necessário para gerir a capacidade, manter a qualidade e garantir que o turismo de cruzeiros contribua positivamente para as comunidades locais.
Dados, desempenho e disrupção emergente
A crescente complexidade dos modelos de excursão também está impulsionando uma maior dependência de dados e análises.
Os participantes do painel observaram que os dados agora desempenham um papel crítico para entender as preferências dos hóspedes, otimizar operações e refinar a oferta de produtos. No entanto, essa mudança traz um desafio: equilibrar a tomada de decisão orientada por dados com a natureza emocional e experiencial das viagens.
Ao mesmo tempo, tecnologias emergentes — especialmente a inteligência artificial — devem ampliar ainda mais a disrupção no setor. Como destacado na discussão, excursões padronizadas ou “commoditizadas” podem se tornar cada vez mais vulneráveis em um contexto em que os viajantes têm acesso a mais informações e opções alternativas.
Essa dinâmica sugere que, no longo prazo, apenas ofertas altamente diferenciadas e orientadas pela experiência poderão permanecer competitivas.
Perspectivas
As discussões desta sessão apontam para um ponto de virada para as excursões em terra dentro da indústria de cruzeiros.
À medida que as expectativas dos viajantes evoluem, as excursões estão se tornando mais personalizadas, mais integradas à identidade da marca e mais dependentes da colaboração entre ecossistemas de destinos. Ao mesmo tempo, mudanças tecnológicas e comportamentais estão desafiando modelos tradicionais, impulsionando o setor em direção a abordagens mais diferenciadas e orientadas a valor.
Esses desenvolvimentos sugerem que o futuro das excursões em terra dependerá não apenas da inovação, mas da capacidade de companhias de cruzeiro, operadoras e destinos trabalharem juntos para entregar experiências significativas e de alta qualidade, que ressoem com viajantes cada vez mais sofisticados.




