Seatrade Cruise Global 2026. Além do número de passageiros: repensando a criação de valor nas escalas de cruzeiros

Na Seatrade Cruise Global, as discussões sobre o crescimento dos cruzeiros e o volume de passageiros frequentemente dominam a agenda. No entanto, durante a sessão Maximizando os benefícios das escalas de cruzeiros: tempo em terra, gastos e impacto, realizada em 13 de abril no Sunset Vista Salon, a conversa mudou para uma questão mais sutil: como o valor é, de fato, criado durante uma escala no porto?

Reunindo representantes de companhias de cruzeiro, portos e organizações de turismo, o painel analisou como o tempo passado em terra se traduz em impacto econômico, engajamento dos visitantes e visibilidade de longo prazo do destino. As trocas sugerem que maximizar os benefícios das escalas de cruzeiros depende cada vez mais não apenas de atrair navios, mas de compreender e influenciar o que acontece quando os passageiros — e a tripulação — desembarcam.

Repensando a criação de valor além do número de passageiros

Uma mensagem central que emerge da discussão é que o valor de uma escala de cruzeiro não pode ser medido apenas pelo volume de passageiros. Embora o fluxo continue sendo importante, o painel apontou repetidamente a necessidade de compreender melhor comportamentos, escolhas e experiências em terra.

Russell Benford, Vice-presidente de Relações Governamentais, Américas, no Royal Caribbean Group, enfatizou a importância do feedback direto dos passageiros, observando que “a maior fonte de informação são, na verdade, os hóspedes do cruzeiro.”

Essa perspectiva sugere que destinos que buscam aumentar o impacto econômico precisam ir além de dados agregados e desenvolver insights mais detalhados sobre como os visitantes interagem com os ambientes locais. Ferramentas simples — como pesquisas no local ou coleta de feedback em tempo real — foram descritas como formas eficazes de capturar esses insights e embasar a tomada de decisão.

Gastos da tripulação surgem como um vetor subaproveitado

Além da atividade dos passageiros, a discussão destacou o papel frequentemente negligenciado dos tripulantes nas economias locais.

Karin Plettner, Vice-presidente de Estratégia Global de Portos e Destinos na Carnival Corporation, apontou como o comportamento da tripulação pode influenciar diretamente as escolhas dos passageiros, compartilhando um exemplo em que um local inicialmente popular entre tripulantes mais tarde se tornou um ponto preferido dos hóspedes por meio de recomendações a bordo.

Os participantes do painel também observaram que os padrões de gastos da tripulação diferem significativamente dos dos passageiros, com despesas frequentemente direcionadas a serviços do dia a dia, como alimentação e varejo.

Dona Regis-Prosper, Secretária-geral e CEO da Caribbean Tourism Organization, destacou que destinos que atendem ativamente à tripulação — por meio de transporte, serviços ou comodidades dedicadas — podem fortalecer tanto o impacto econômico quanto a experiência do visitante.

Essas observações sugerem que os destinos podem se beneficiar ao adotar uma estratégia mais deliberada de engajamento da tripulação, reconhecendo seu papel duplo como consumidores e embaixadores informais.

(c)Lemoneight

De visitantes a influenciadores: ampliando o impacto do destino

Outro tema-chave discutido durante o painel diz respeito à crescente influência dos passageiros como amplificadores digitais dos destinos.

Como destacado por Roger Blum, principal na Cruise & Port Advisors e moderador da sessão, cada escala de cruzeiro representa não apenas um fluxo de visitantes, mas também uma rede de potencial visibilidade, observando que “todo mundo naquele navio é um influenciador.”

Com os viajantes compartilhando cada vez mais suas experiências online, mesmo uma única escala pode gerar exposição digital significativa. Isso amplia o impacto de uma visita de cruzeiro para além do gasto imediato, contribuindo para o reconhecimento do destino e a demanda futura.

A discussão também apontou para o papel crescente da inteligência artificial no planejamento de viagens. Russell Benford observou que os destinos precisarão, cada vez mais, entender como as ferramentas digitais agregam e recomendam experiências, à medida que os viajantes passam a depender mais de roteiros orientados por IA.

Ecossistemas locais no centro da criação de valor

Por trás dessas discussões, há uma mudança mais ampla no sentido de reconhecer o papel dos ecossistemas locais na entrega de experiências de cruzeiro significativas.

Marie-Andrée Blanchet, Diretora de Cruzeiros e Desenvolvimento Internacional no Porto de Quebec, destacou como os portos podem atuar como facilitadores em suas comunidades, ajudando os atores locais a se conectarem aos fluxos de cruzeiros e a aprimorar a experiência geral do visitante.

Os participantes do painel sugeriram que melhorar a colaboração entre portos, empresas locais e comunidades pode ajudar a ampliar o tempo em terra e diversificar as atividades disponíveis aos visitantes.

Implicações para a América Latina e o Caribe

Para a América Latina e o Caribe, essas discussões oferecem insights relevantes sobre como o turismo de cruzeiros pode evoluir no nível dos destinos.

A região, já central nos itinerários globais de cruzeiros, tende a se beneficiar do crescimento sustentado de passageiros. No entanto, o painel sugere que a competitividade futura pode depender cada vez mais de quão eficazmente os destinos gerenciam e aprimoram as experiências em terra.

Estratégias como coletar e aproveitar dados de visitantes, engajar a tripulação como um segmento de mercado distinto e fortalecer a colaboração com atores locais podem desempenhar um papel-chave na maximização dos retornos econômicos. Ao mesmo tempo, a crescente importância da visibilidade digital e do compartilhamento em redes sociais indica que os destinos talvez precisem repensar como se posicionam tanto em ecossistemas de viagem físicos quanto virtuais.

Perspectivas

As discussões desta sessão sugerem que maximizar os benefícios das escalas de cruzeiros exige uma compreensão mais ampla da criação de valor.

Embora o tempo em terra permaneça um fator crítico, é a combinação do comportamento do visitante, do engajamento local e da amplificação digital que, em última instância, molda o impacto geral de uma visita de cruzeiro. À medida que o setor continua a evoluir, destinos capazes de conectar esses elementos — de dados e desenho de experiências ao envolvimento da comunidade — podem estar mais bem posicionados para capturar benefícios imediatos e de longo prazo do turismo de cruzeiros.


Crédito da foto: Caribbean Tourism Organization, Lemoneight

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