A carga aérea continua a ocupar uma parcela relativamente pequena do comércio global em volume, mas sua importância econômica permanece substancial. Representando cerca de 1 % dos fluxos comerciais globais, mas próximo a 30 % de seu valor, desempenha um papel desproporcional na conexão de mercadorias de alto valor entre mercados. As discussões realizadas durante o ACI Airport Day Quito sugerem que esse desequilíbrio está moldando cada vez mais a forma como os ecossistemas aeroportuários na América Latina e no Caribe se posicionam dentro de sistemas econômicos mais amplos.
Nos painéis dedicados às operações de carga e ao desenvolvimento aeroportuário, surgiram vários temas recorrentes. Em conjunto, apontam para uma mudança na forma como a carga é percebida — não simplesmente como uma função operacional, mas como um componente estratégico dos ecossistemas aeroportuários.
O peso crescente da carga nas estratégias aeroportuárias
Vários palestrantes destacaram o impacto mais amplo da carga além de sua atividade comercial direta. Embora o negócio de carga envolva um conjunto definido de atores — companhias aéreas, operadores e prestadores de serviços logísticos — sua influência se estende ainda mais às economias regionais.
As discussões sugerem que a carga não deve ser avaliada apenas por volumes, mas pelo valor que gera nas cadeias de suprimentos. Mesmo em um contexto marcado por tensões geopolíticas, padrões comerciais em evolução e incerteza regulatória, a demanda global de carga apresentou um aumento de 3,4 % em 2025, com as transportadoras da América Latina e do Caribe registrando crescimento de 2,3 %, juntamente com um aumento de 4,5 % na capacidade.
Esses números indicam um certo nível de resiliência, mas também apontam para um ambiente mais complexo no qual a eficiência operacional e a adaptabilidade parecem estar ganhando importância.
Quito como modelo especializado de carga
Nesse contexto, Quito oferece um exemplo particularmente distintivo. O Aeroporto Internacional Mariscal Sucre desenvolveu um perfil de carga altamente especializado, intimamente ligado à estrutura de exportação do Equador.
Desde 2013, o aeroporto movimentou aproximadamente 2,8 milhões de toneladas de carga, atingindo um recorde de 406.754 toneladas em 2025. Uma característica definidora dessa atividade é sua concentração: cerca de 92 % das exportações consistem em flores, posicionando Quito como um portal essencial para a indústria de floricultura do país.
Essa configuração sugere um modelo em que a atividade de carga aeroportuária está profundamente integrada a uma cadeia de valor específica. Em vez de funcionar como um hub diversificado, Quito parece operar como uma plataforma de exportação especializada, estreitamente alinhada com os sistemas de produção locais.
Tal modelo destaca tanto pontos fortes quanto restrições, particularmente em termos de equilíbrio entre fluxos de importação e exportação.

O e-commerce está remodelando os fluxos de carga
Outra dinâmica repetidamente destacada durante as discussões refere-se à rápida expansão do e-commerce.
No Equador, sua participação nos volumes totais de carga teria aumentado de cerca de 15 % em 2023 para 35 % em 2025, indicando uma mudança significativa na estrutura da demanda de frete aéreo.
Essa evolução parece estar introduzindo novas pressões operacionais. A logística de e-commerce está tipicamente associada a expectativas de velocidade, confiabilidade e flexibilidade, que podem diferir dos fluxos de carga tradicionais.
Os palestrantes apontaram a necessidade de processos mais ágeis, coordenação aprimorada e o potencial desenvolvimento de serviços logísticos adicionais, como centros de desconsolidação e o envolvimento de prestadores de serviços logísticos terceirizados.
Ao mesmo tempo, as discussões sugerem que esse crescimento não é linear. Mudanças regulatórias — como ajustes nos marcos de importação — podem influenciar volumes e introduzir novas incertezas, indicando que a trajetória do e-commerce permanece intimamente ligada aos ambientes de políticas públicas.

A coordenação como o verdadeiro gargalo
Embora infraestrutura e capacidade tenham sido discutidas, várias intervenções apontaram para um tipo diferente de restrição: a coordenação ao longo da cadeia de valor da carga.
Os painéis destacaram desafios relacionados à disponibilidade de recursos, processos regulatórios e à fragmentação dos sistemas de informação entre as partes interessadas. Em alguns casos, os gargalos operacionais foram vinculados não a limitações físicas, mas ao desalinhamento entre os atores.
As discussões sugerem que melhorar o desempenho da carga pode depender menos da expansão da infraestrutura do que do aprimoramento do compartilhamento de dados, integração de processos e coordenação institucional. Iniciativas como projetos-piloto para melhor planejamento de chegadas de caminhões ou esforços para alinhar fluxos de informação entre operadores indicam que soluções estão sendo exploradas, embora permaneçam em estágio inicial.
Essa ênfase na coordenação aponta para uma mudança mais ampla nas prioridades, em que a eficiência operacional está cada vez mais vinculada à capacidade das partes interessadas de trabalhar dentro de sistemas integrados.
Implicações para a América Latina e o Caribe
Em conjunto, essas discussões sugerem várias implicações para a região.
Primeiro, a carga parece estar consolidando seu papel como uma alavanca estratégica para o desenvolvimento aeroportuário, particularmente em economias onde as exportações dependem de mercadorias de alto valor ou sensíveis ao tempo.
Segundo, o crescimento do e-commerce indica uma transformação nos fluxos de carga, potencialmente criando novas oportunidades, ao mesmo tempo que aumenta a complexidade operacional.
Por fim, o foco recorrente na coordenação destaca desafios estruturais que podem afetar a competitividade dos ecossistemas aeroportuários. A fragmentação entre instituições e sistemas poderia limitar a capacidade de capturar plenamente o valor gerado pela atividade de carga.
Em vez de apontar para um modelo único, as trocas sugerem que diferentes abordagens podem surgir na região, dependendo das estruturas econômicas locais, ambientes regulatórios e níveis de alinhamento institucional.

Vozes e perspectivas do setor
As perspectivas compartilhadas pelos participantes do setor refletem essas dinâmicas sob diferentes ângulos.
As companhias aéreas apontaram o impacto de fatores externos, como custos de combustível, que podem representar uma parcela significativa das despesas operacionais, e a necessidade de ajustar continuamente a capacidade e a utilização da frota em resposta à demanda.
Do ponto de vista dos operadores de carga, a capacidade de antecipar volumes e alocar recursos de forma eficaz foi identificada como um desafio operacional fundamental, particularmente em um ambiente onde a demanda pode flutuar.
Os operadores aeroportuários, por sua vez, enfatizaram a importância da colaboração entre as partes interessadas, incluindo autoridades públicas, para garantir que infraestrutura, processos e marcos regulatórios evoluam de maneira coordenada.
Essas perspectivas sugerem um setor em que realidades operacionais e considerações estratégicas estão cada vez mais interconectadas.
Perspectivas
As discussões em Quito não apontam para uma trajetória única para o futuro da carga aérea na região. No entanto, sugerem que os aeroportos estão gradualmente avançando em direção a modelos de carga mais integrados e economicamente incorporados.
À medida que a carga continua a evoluir, seu papel dentro dos ecossistemas aeroportuários parece tender a se expandir, não apenas como fonte de receita, mas como elemento estruturante das cadeias de valor regionais.
Ao mesmo tempo, a medida em que esse potencial pode ser realizado pode depender da capacidade das partes interessadas de enfrentar desafios de coordenação e se adaptar às condições de mercado em mudança.
Nesse contexto, a carga não apenas reflete transformações mais amplas — ela também pode ajudar a moldá-las.



