América Latina emerge como um ator estratégico na corrida pelos combustíveis sustentáveis de aviação

combustível sustentável de aviação

A indústria global da aviação está entrando em uma fase decisiva de sua transição rumo às emissões líquidas zero. À medida que companhias aéreas e aeroportos enfrentam crescente pressão para descarbonizar suas operações enquanto acomodam o aumento da demanda por viagens aéreas, o sustainable aviation fuel (SAF) consolidou-se como um dos pilares centrais da transição energética do setor. Nesse contexto, a América Latina começa a se posicionar como um potencial fornecedor estratégico dentro do emergente ecossistema global de SAF, apoiada por uma combinação de iniciativas políticas, abundância de recursos naturais e expansão das capacidades industriais.

De acordo com o mais recente Global Aviation Sustainability Outlook 2026, publicado pelo World Economic Forum, a indústria da aviação permanece firmemente comprometida com a meta de alcançar emissões líquidas zero até 2050, mesmo diante do rápido crescimento da demanda por transporte aéreo. O tráfego global de passageiros deve atingir 10,2 bilhões de viajantes em 2026 e pode chegar a 18,8 bilhões até 2045, reforçando a urgência de soluções escaláveis capazes de reduzir a pegada de carbono da aviação.

Entre essas soluções, o SAF é amplamente considerado o caminho mais imediato e escalável para descarbonizar a aviação de longa distância. No entanto, os volumes atuais de produção ainda estão muito abaixo dos níveis necessários para sustentar os objetivos de longo prazo do setor em matéria de sustentabilidade. Esse crescente déficit de oferta está levando governos e líderes da indústria a identificar novas regiões capazes de produzir combustíveis sustentáveis em grande escala.

Brasil posiciona-se no centro da agenda do SAF

Dentro da América Latina, o Brasil emergiu como um dos países mais proativos no desenvolvimento de uma estratégia nacional para combustíveis sustentáveis de aviação. Após adotar, em 2024, uma legislação específica de apoio ao SAF, o governo brasileiro passou a buscar posicionar o país como um grande produtor futuro de combustíveis de aviação de baixo carbono.

Durante a COP30, o Brasil lançou o “Belém 4x Pledge”, uma iniciativa que pretende quadruplicar a produção de combustíveis de baixo carbono até 2035 em comparação com os níveis de 2024. A iniciativa reflete a ambição do país de aproveitar sua consolidada indústria de biocombustíveis para apoiar a descarbonização da aviação internacional.

O compromisso já atraiu amplo apoio internacional. Um total de 23 países aderiram à iniciativa, incluindo Chile e Guatemala, além de parceiros da Europa, Ásia e América do Norte. Essa crescente coalizão destaca a importância estratégica da cooperação internacional para ampliar a oferta global de combustíveis sustentáveis de aviação.

A expertise do Brasil em bioenergia — especialmente na produção de etanol, combustíveis derivados da soja e outros insumos agrícolas — confere ao país uma vantagem significativa nesse mercado emergente. À medida que a descarbonização da aviação se acelera, o Brasil pode tornar-se um dos principais polos da cadeia global de valor do SAF.

Chile e outros países da região avançam em estratégias de SAF

Além do Brasil, outros países latino-americanos também estão desenvolvendo suas próprias estratégias para combustíveis sustentáveis de aviação. O Chile, por exemplo, vem aperfeiçoando o marco regulatório e técnico de seu roteiro nacional de SAF, lançado em 2024. O país prepara o lançamento de projetos piloto de produção destinados a testar rotas industriais para combustíveis sustentáveis de aviação.

Em outras partes da região, vários governos estão avaliando a viabilidade da produção de SAF com o apoio de iniciativas de capacitação promovidas pela International Civil Aviation Organization (ICAO). Países como Argentina, México, Panamá e Peru estão atualmente analisando marcos regulatórios, disponibilidade de matérias-primas e oportunidades industriais relacionadas ao SAF.

Essas iniciativas indicam uma mudança regional mais ampla rumo à integração da descarbonização da aviação nas estratégias nacionais de energia e transporte. À medida que os marcos regulatórios evoluem e os projetos piloto avançam, a América Latina poderá gradualmente estabelecer um ecossistema coordenado de produção de SAF, capaz de abastecer tanto os mercados regionais quanto o mercado internacional da aviação.

Recursos agrícolas como vantagem estratégica

Uma das principais forças da América Latina no emergente mercado de SAF reside em seus abundantes recursos agrícolas. Muitas das matérias-primas utilizadas na produção de combustíveis sustentáveis de aviação — incluindo óleos vegetais, gorduras animais e resíduos agrícolas — estão amplamente disponíveis em todo o continente.

As cadeias globais de biocombustíveis já demonstram a importância estratégica desses recursos. Os fluxos comerciais de insumos como óleo de soja e gorduras animais estão influenciando cada vez mais a economia da produção de SAF. Em particular, a capacidade exportadora do Brasil em commodities agrícolas e matérias-primas para bioenergia poderá desempenhar um papel crucial na ampliação da produção global de SAF nas próximas décadas.

Essas vantagens naturais posicionam a América Latina como um potencial pilar da futura cadeia global de suprimento de combustíveis sustentáveis de aviação, especialmente à medida que a demanda cresce na Europa, América do Norte e Ásia.

Um novo papel para aeroportos e infraestrutura de aviação

A expansão dos combustíveis sustentáveis de aviação também deverá transformar o papel da infraestrutura aeroportuária. À medida que as redes de produção e distribuição de SAF se desenvolvem, espera-se que os aeroportos evoluam para verdadeiros hubs energéticos integrados dentro do ecossistema da aviação.

De acordo com a análise do World Economic Forum, os aeroportos estão se tornando cada vez mais nós críticos de infraestrutura, capazes de apoiar o armazenamento, a mistura e a distribuição de combustíveis sustentáveis. Essa transformação exigirá investimentos significativos em sistemas logísticos, infraestrutura de combustíveis e redes energéticas.

Para os principais hubs da aviação latino-americana — incluindo aeroportos em São Paulo, Cidade do México, Bogotá e Cidade do Panamá — a integração das cadeias de suprimento de SAF poderá tornar-se um elemento central das estratégias de desenvolvimento de infraestrutura no longo prazo.

O papel crescente da América Latina na descarbonização da aviação

Embora a indústria global da aviação ainda enfrente desafios consideráveis para ampliar a produção de combustíveis sustentáveis de aviação, a América Latina parece cada vez mais bem posicionada para contribuir para a transição energética do setor. Com sua combinação de recursos agrícolas, expertise em biocombustíveis e marcos regulatórios emergentes, a região poderá desempenhar um papel decisivo na expansão da produção global de SAF.

À medida que governos e atores da indústria continuam a desenvolver políticas públicas e pipelines de investimento, a participação da América Latina no ecossistema de combustíveis sustentáveis de aviação tende a crescer. Para o setor da aviação, essa evolução poderá abrir novas fontes de abastecimento e acelerar a transição para um sistema global de transporte aéreo mais sustentável.

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