A cadeia de projetos de SAF na América Latina avança para além dos anúncios

América Latina

A indústria de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) da América Latina começa a passar dos projetos anunciados para compromissos de investimento e produção comercial. Um estudo da ALTA e da ICF identificou mais de 1,9 bilhão de galões de capacidade de produção proposta, mas nenhuma decisão final de investimento até novembro de 2025. Os avanços da Acelen Renewables e da Petrobras no Brasil durante 2026 representam uma mudança importante, embora grande parte da capacidade industrial planejada na região ainda não tenha entrado em operação.

Uma carteira de 1,9 bilhão de galões ainda à espera de investimentos

A América Latina e o Caribe iniciaram 2026 com uma carteira expressiva de projetos de combustíveis sustentáveis de aviação, mas com poucas evidências de capacidade industrial respaldada por compromissos firmes de investimento. O relatório da ALTA e da ICF, Net Zero Aviation in Latin America and the Caribbean: Pathways and Trade-offs, datado de março de 2026, identificou mais de 1,9 bilhão de galões de capacidade de produção anunciada. Até novembro de 2025, nenhum dos projetos analisados havia alcançado uma decisão final de investimento (Final Investment Decision, FID), e pouquíssimos haviam recebido investimentos substanciais na fase de estudos de viabilidade.

O levantamento da ALTA e da ICF, elaborado em outubro de 2025, abrangeu projetos no Brasil, na Argentina, na Colômbia, no Chile e no Panamá. O Brasil concentrava o maior número de instalações anunciadas, refletindo suas indústrias consolidadas de etanol e biodiesel e o acesso a matérias-primas agrícolas. Outras propostas utilizavam tecnologias que iam desde ésteres e ácidos graxos hidroprocessados (HEFA) até Alcohol-to-Jet (AtJ) e Power-to-Liquid (PtL).

A distinção entre capacidade anunciada e oferta operacional é fundamental. Uma decisão final de investimento representa um compromisso formal de dar continuidade a um projeto, mas financiamento, construção, comissionamento e produção comercial continuam sendo etapas distintas. O estudo da ALTA e da ICF alerta expressamente que a capacidade anunciada não se traduz necessariamente em instalações em operação.

Acelen transforma financiamento em compromisso industrial

A Acelen Renewables alcançou um importante marco de financiamento em maio de 2026 para sua biorrefinaria planejada em São Francisco do Conde, no estado da Bahia, no Brasil. A empresa, apoiada pela Mubadala Capital, anunciou um pacote de financiamento de US$ 1,5 bilhão para iniciar a construção, com o apoio de um consórcio liderado pelo HSBC e pela International Finance Corporation (IFC). Segundo a Mission Possible Partnership, o projeto alcançou sua decisão final de investimento em maio.

A Acelen Renewables planeja produzir até um bilhão de litros por ano de combustível sustentável de aviação e diesel renovável, em conjunto, utilizando a tecnologia HEFA. O início das operações está previsto para 2029. O pacote de financiamento de US$ 1,5 bilhão integra um empreendimento mais amplo, com investimentos superiores a US$ 3 bilhões, incluindo atividades agroindustriais.

Os acordos comerciais são outro diferencial do projeto na Bahia. Em maio de 2026, a Acelen Renewables informou que aproximadamente 90% da comercialização prevista de seu SAF e diesel renovável já havia sido estruturada e formalizada por meio de contratos assinados. A empresa também identificou acordos com companhias como Trafigura, Moeve, Bunge e BGN.

O avanço da Acelen demonstra como a garantia de compradores futuros, do fornecimento de matérias-primas e do financiamento pode ajudar a transformar uma instalação proposta em um investimento industrial. A preparação comercial está se tornando tão importante quanto o volume de produção anunciado.

Petrobras aprova outro grande investimento

A Petrobras confirmou uma segunda grande decisão de investimento no Brasil em 19 de junho de 2026. O conselho de administração da companhia aprovou o projeto RPBC Biorefining, na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, no estado de São Paulo, com investimento estimado em aproximadamente US$ 1,2 bilhão.

O projeto RPBC da Petrobras prevê uma unidade dedicada com capacidade para produzir até 15 mil barris por dia de combustível renovável de aviação e diesel renovável, em conjunto. A Petrobras espera iniciar a construção até o fim de 2026, com o começo das operações programado para 2030. O investimento aprovado permitirá à companhia avançar para as etapas finais de contratação e execução.

As decisões de investimento anunciadas pela Acelen Renewables e pela Petrobras representam uma mudança em relação à situação documentada no estudo da ALTA e da ICF. Até junho de 2026, pelo menos dois grandes projetos brasileiros haviam ultrapassado a etapa da decisão final de investimento, ainda ausente da carteira regional em novembro de 2025. Suas capacidades de produção anunciadas, porém, continuam sendo metas futuras, e não volumes já disponíveis para as companhias aéreas.

A produção comercial de SAF já começou

A Petrobras também avançou por outra rota de produção: a integração de matérias-primas renováveis à infraestrutura de refino existente. Em 5 de dezembro de 2025, a companhia anunciou as primeiras entregas de SAF produzido no Brasil e certificado quanto à sustentabilidade, totalizando 3 mil metros cúbicos fornecidos a distribuidoras de combustível de aviação que atendem ao Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. O combustível foi produzido por coprocessamento na Refinaria Duque de Caxias.

Em 17 de junho de 2026, a Petrobras anunciou outro marco na Refinaria Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. A companhia concluiu a produção e a comercialização de um lote de 3,8 milhões de litros de combustível de aviação contendo 1% de conteúdo renovável, utilizando óleo de soja fornecido pela Bunge e certificado pelo referencial CORSIA Low ILUC Risk. A distribuição ficou a cargo da Vibra. A Petrobras identificou a operação como seu primeiro lote produzido com óleo de soja que possuía essa certificação específica.

O volume de 3,8 milhões de litros refere-se ao lote completo de combustível misturado, e não a 3,8 milhões de litros de combustível renovável puro. O coprocessamento também difere das unidades dedicadas planejadas pela Acelen Renewables e pela Petrobras em Cubatão: o processo incorpora matérias-primas renováveis às operações existentes de refino de petróleo, permitindo o fornecimento comercial inicial sem a necessidade de aguardar a entrada em operação de novas biorrefinarias.

O que torna um projeto de SAF financiável?

O estudo da ALTA e da ICF identifica diversos obstáculos que impedem os projetos de SAF anunciados de obter aprovação de investimento. Custos elevados de produção, acesso limitado a capital a custos acessíveis, incertezas tecnológicas e demanda insuficientemente garantida para sustentar o financiamento dificultam a obtenção de compromissos comerciais de longo prazo. O relatório estima que o SAF pode custar entre três e doze vezes mais do que o querosene de aviação convencional, dependendo da rota de produção e das condições de mercado.

A escolha da tecnologia acrescenta outra dimensão de risco. A ALTA e a ICF identificam a rota HEFA como a mais madura comercialmente, embora sua expansão seja limitada pela disponibilidade de matérias-primas adequadas. Tecnologias alternativas, como Alcohol-to-Jet, oferecem potencial de longo prazo, mas enfrentam desafios adicionais de desenvolvimento e financiamento.

As estruturas de financiamento são particularmente importantes para biorrefinarias que exigem investimentos intensivos em capital. O estudo da ALTA e da ICF explica que os credores podem, normalmente, fornecer entre 60% e 80% do capital de um projeto, enquanto os investidores em participação societária aportam o restante. Antes de comprometer recursos, os investidores precisam avaliar o desempenho tecnológico, as exigências regulatórias, a demanda futura e os retornos esperados.

Os projetos brasileiros ilustram duas formas de enfrentar essas barreiras. A Acelen Renewables combinou financiamento com compromissos comerciais substanciais, enquanto a Petrobras aprovou investimentos em produção dedicada e, paralelamente, iniciou a comercialização por meio de suas instalações de refino existentes. Nenhuma das abordagens elimina a necessidade de garantir matérias-primas sustentáveis, cumprir os requisitos de certificação e fornecer combustível a preços comercialmente viáveis.

Das decisões de investimento à escala industrial

A indústria de SAF da América Latina começou a superar a etapa descrita no estudo da ALTA e da ICF. A Acelen Renewables e a Petrobras anunciaram decisões finais de investimento para grandes biorrefinarias brasileiras, enquanto a Petrobras demonstrou que combustível certificado já pode chegar ao mercado por meio do coprocessamento.

O próximo desafio é a execução industrial. A Acelen Renewables prevê iniciar suas operações em 2029, enquanto a Petrobras planeja colocar sua unidade de Cubatão em funcionamento em 2030. Ambos os projetos ainda precisam transformar compromissos financeiros e de engenharia em instalações concluídas, fornecimento confiável de matérias-primas e produção contínua.

A transição para o SAF na América Latina já não é definida apenas pelo volume de projetos anunciados. O indicador mais relevante passa a ser quanto dessa carteira poderá se transformar em combustível financiado, certificado e comercialmente disponível.


Fonte: ALTA & ICF, Net Zero Aviation in Latin America and the Caribbean: Pathways and Trade-offs (março de 2026)

Qual é a capacidade de produção de SAF anunciada na América Latina e no Caribe?

O estudo da ALTA e da ICF identificou mais de 1,9 bilhão de galões de capacidade de produção anunciada em sua avaliação de projetos de 2025. O número representa capacidade proposta, e não produção operacional.

Quais projetos brasileiros de SAF alcançaram decisões finais de investimento em 2026?

A Acelen Renewables alcançou a decisão final de investimento para sua biorrefinaria na Bahia em maio de 2026, enquanto a Petrobras aprovou o projeto RPBC Biorefining, em Cubatão, em 19 de junho de 2026.

A produção comercial de SAF já começou no Brasil?

Sim. A Petrobras anunciou suas primeiras entregas de SAF produzido no Brasil e certificado em dezembro de 2025 e comercializou um lote de combustível à base de soja com 1% de conteúdo renovável em junho de 2026. Ambas as operações utilizaram coprocessamento na Refinaria Duque de Caxias.

Por que é difícil financiar projetos de SAF na América Latina?

O estudo da ALTA e da ICF identifica os altos custos de produção, a incerteza da demanda, os riscos de financiamento, a maturidade tecnológica e a disponibilidade de matérias-primas sustentáveis como os principais obstáculos à obtenção de investimentos.

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