Uma proposta de taxa federal de imigração para passageiros de cruzeiros no México tornou-se uma das questões regulatórias mais acompanhadas durante a FCCA Cruise Conference 2025, realizada em Porto Rico.
O tema foi abordado por Vicky Rey, Vice President of Government Affairs for Latin America da Carnival Corporation & plc, que apresentou a medida como um exemplo de um desafio mais amplo enfrentado pela indústria de cruzeiros. Segundo ela, as companhias membros da FCCA e diversos representantes do setor privado dialogaram com as autoridades mexicanas após a apresentação da proposta, contribuindo para a adoção de um plano de implementação gradual com uma estrutura tarifária reduzida.
Embora o debate tenha se concentrado em um mercado específico, as discussões levantaram uma questão mais ampla para os destinos de cruzeiro da América Latina e do Caribe: como os governos podem aumentar as receitas geradas pelo turismo sem comprometer sua competitividade em uma indústria na qual os navios podem ser deslocados para outros destinos?
Os destinos estão sob pressão para capturar mais valor
O momento desse debate não é coincidência.
Segundo os dados apresentados durante a conferência da FCCA, o turismo de cruzeiros gerou quase US$ 4,2 bilhões em gastos diretos na América Latina e no Caribe durante a temporada de cruzeiros 2023-2024, sustentando mais de 94 mil empregos e aproximadamente US$ 1,27 bilhão em salários.
Com o volume global de passageiros projetado para atingir 37,7 milhões em 2025 e continuar crescendo rumo aos 42 milhões até 2028, muitos governos buscam formas de garantir que uma parcela maior dessa atividade econômica contribua diretamente para as receitas públicas, o desenvolvimento de infraestrutura e a gestão dos destinos.
Os portos precisam de investimentos. Os terminais de passageiros precisam ser modernizados. Sistemas de transporte, instalações turísticas e programas de gestão ambiental também exigem recursos financeiros.
Nesse contexto, a criação de novas taxas e cobranças relacionadas aos passageiros pode parecer politicamente e economicamente atraente.
O caso mexicano expôs as preocupações da indústria
Durante sua apresentação, Vicky Rey descreveu o que considera um desafio emergente para o setor.
“A key challenge that comes to mind is the recent trend by some destinations to look to the cruise industry as a bottomless pit of tax revenue.”
Suas declarações refletem as preocupações da indústria de que aumentos rápidos de impostos, taxas ou custos regulatórios possam, em algum momento, comprometer a competitividade dos destinos.
Segundo Rey, as discussões em torno da taxa de imigração proposta pelo México resultaram, por fim, em uma cobrança reduzida e implementada gradualmente, permitindo que o país permanecesse competitivo no mercado de cruzeiros enquanto buscava aumentar suas receitas.
Para as operadoras de cruzeiros, a relevância desse caso foi muito além da taxa em si.
O episódio demonstrou como decisões regulatórias podem influenciar diretamente o planejamento de investimentos, o desenvolvimento de itinerários e as estratégias de posicionamento de longo prazo.
Os navios de cruzeiro podem mudar de rota
Uma das características mais marcantes da indústria de cruzeiros é sua flexibilidade operacional.
Ao contrário de hotéis, aeroportos ou instalações industriais, os navios de cruzeiro são ativos móveis. As companhias avaliam continuamente onde posicionar suas embarcações com base na demanda, nas condições operacionais, na qualidade da infraestrutura e na viabilidade econômica geral.
Isso significa que impostos e taxas raramente são analisados isoladamente.
Taxas de passageiros, tarifas portuárias, custos operacionais, despesas de turnaround e exigências regulatórias fazem parte da equação econômica que orienta as decisões de posicionamento. Individualmente, uma medida pode parecer administrável. No entanto, a soma de diversos aumentos de custos pode alterar a atratividade de um destino em relação a mercados concorrentes.
Essa realidade ajuda a explicar por que os executivos do setor frequentemente enfatizam a importância da previsibilidade e do diálogo ao abordar questões de política pública.
A preocupação geralmente não está na existência de taxas, mas na forma como elas são introduzidas, estruturadas e comunicadas.
A competitividade está se tornando cada vez mais multidimensional
As discussões durante a FCCA Cruise Conference também refletiram uma mudança mais ampla na forma como os destinos são avaliados.
Atrativos naturais, praias e experiências turísticas continuam sendo fundamentais. No entanto, as companhias de cruzeiro estão considerando um conjunto cada vez mais amplo de fatores ao tomar decisões de posicionamento de longo prazo.
Entre eles estão:
- estabilidade regulatória,
- prontidão da infraestrutura;
- conectividade aérea;
- eficiência operacional;
- compromissos ambientais;
- disponibilidade de mão de obra;
- e facilidade para fazer negócios.
Nesse contexto, a previsibilidade regulatória está se tornando um diferencial competitivo por si só.
À medida que destinos da América Latina e do Caribe investem fortemente para atrair o crescimento futuro do setor de cruzeiros, manter um ambiente operacional estável pode ser tão importante quanto construir novas infraestruturas ou expandir a oferta turística.
Um exercício de equilíbrio para o próximo ciclo de crescimento
O debate ilustrado pelo caso mexicano evidencia a relação cada vez mais complexa entre destinos e operadoras de cruzeiros.
Os governos buscam recursos adicionais para financiar infraestrutura, serviços públicos e desenvolvimento turístico. As companhias de cruzeiro, por sua vez, procuram ambientes operacionais que permaneçam previsíveis e competitivos no longo prazo.
Esses dois objetivos não são incompatíveis.
Mas, à medida que a indústria de cruzeiros entra em um novo ciclo de crescimento, encontrar o equilíbrio adequado entre geração de receitas e competitividade de mercado deverá se tornar um desafio cada vez mais importante para os destinos da América Latina e do Caribe.
Para os formuladores de políticas públicas, a questão já não é se o turismo de cruzeiros gera valor econômico. A verdadeira questão é como capturar esse valor sem enfraquecer as condições que ajudaram a criá-lo.



