A agenda climática da aviação ainda é amplamente estruturada em torno das emissões. Combustíveis sustentáveis de aviação, mercados de carbono, tecnologias aeronáuticas mais limpas e a trajetória rumo ao net zero até 2050 dominam grande parte do debate.
Mas reduzir a contribuição da aviação para as mudanças climáticas e preparar os sistemas aeronáuticos para seus impactos físicos são duas tarefas distintas.
Essa diferença está se tornando cada vez mais relevante para os aeroportos. Pistas, terminais e outros ativos críticos são projetados para longos ciclos de operação. As decisões tomadas hoje podem, portanto, determinar como essas infraestruturas responderão a condições que poderão evoluir ao longo das próximas décadas.
Para o Caribe, a questão merece atenção especial. A região reúne sistemas aeroportuários extremamente diversos, desde grandes gateways internacionais até instalações insulares de menor porte, operando com diferentes perfis de tráfego, recursos financeiros e limitações de infraestrutura. Não existe um único desafio de resiliência aplicável a todo o Caribe.
O que se torna cada vez mais evidente, no entanto, é que a descarbonização, por si só, não responde aos riscos físicos associados às mudanças climáticas.
A adaptação está ganhando espaço no planejamento da aviação
Durante a ICAO Aviation Climate Week 2026, realizada em Montreal de 2 a 4 de junho, a International Civil Aviation Organization apresentou seus trabalhos em andamento sobre adaptação climática, estruturados em torno de três áreas: avaliação de riscos climáticos, planejamento da adaptação e fortalecimento da resiliência.
As orientações ainda estão em desenvolvimento e vêm evoluindo para um manual mais detalhado da ICAO.
Esse trabalho se soma ao Climate Adaptation Synthesis Report da ICAO, publicado em 2025. Segundo a apresentação, o relatório reúne evidências científicas recentes e contribuições de pesquisas realizadas com stakeholders para oferecer um panorama dos atuais riscos climáticos para a aviação, bem como dos avanços alcançados e dos desafios ainda existentes.
Os dados apresentados em Montreal conferem maior peso a essa discussão.
A pesquisa de 2022 da ICAO sobre adaptação climática recebeu 259 respostas nas sete regiões da ICAO, com a participação de Estados, aeroportos e autoridades de aviação civil, incluindo Small Island Developing States. O levantamento constatou que 95% dos respondentes identificaram o aumento das temperaturas médias e extremas entre os principais riscos climáticos, enquanto 81% apontaram a maior intensidade das tempestades, 74% os impactos econômicos e sobre as atividades, e 71% as mudanças nos padrões de vento.
O mesmo painel revela uma lacuna significativa na implementação. Embora 74% tenham informado que avaliações de risco estavam em andamento ou planejadas, apenas 12% já estavam implementando medidas de adaptação. Outros 17% previam iniciar a implementação nos cinco anos seguintes, enquanto 87% afirmaram que mais ações eram necessárias.
Esses números não descrevem especificamente o Caribe e não devem ser interpretados como um indicador do nível de preparação regional. Ainda assim, revelam um desafio mais amplo para a aviação: a conscientização sobre os riscos climáticos físicos avança mais rapidamente do que a implementação de respostas concretas.
Para o Caribe, a resiliência não é um desafio uniforme
Essa distinção é importante quando se observa a América Latina e o Caribe.
A própria apresentação da Aviation Climate Week menciona trabalhos já desenvolvidos pela indústria especificamente sobre a adaptação dos aeroportos da América Latina e do Caribe às mudanças climáticas, paralelamente a iniciativas mais amplas voltadas à resiliência aeroportuária e à continuidade dos negócios.
Esse enfoque regional é importante porque a exposição não se traduz automaticamente no mesmo nível de risco operacional em todos os lugares.
Um grande hub com receitas diversificadas, capacidade própria de engenharia e múltiplas opções de investimento enfrenta um desafio de adaptação diferente daquele de um aeroporto insular de menor porte, sujeito a restrições de capital mais severas. Geografia, condição dos ativos, estrutura do tráfego, redundância e capacidade institucional influenciam diretamente o que a resiliência significa na prática.
A questão, portanto, não é saber se todos os aeroportos do Caribe enfrentam a mesma ameaça. É determinar se o planejamento aeroportuário está suficientemente preparado para identificar quais riscos físicos são mais relevantes em cada localidade, quais ativos são críticos para a continuidade das operações e onde a adaptação deve ser incorporada às futuras decisões de investimento.
Isso muda a natureza do debate climático.
Para os líderes aeroportuários, a adaptação pode se cruzar diretamente com o planejamento de investimentos, a gestão de ativos e a continuidade dos negócios. Programas de infraestrutura concebidos hoje podem precisar considerar perfis de risco que evoluirão ao longo de décadas de operação. A resposta adequada varia de um aeroporto para outro, mas o horizonte de planejamento é, por natureza, de longo prazo.
Isso também cria um desafio de priorização. Os aeroportos já precisam equilibrar necessidades de investimento relacionadas à capacidade, segurança, experiência do passageiro, digitalização, sistemas energéticos e descarbonização. A adaptação acrescenta mais uma dimensão a uma agenda de capital já sobrecarregada.
Para mercados menores, a questão pode ser particularmente difícil quando a capacidade técnica e o acesso ao financiamento são limitados. Mas é justamente nesse ponto que se exige cautela: a resiliência não pode ser reduzida a uma simples divisão entre “grandes hubs preparados” e “pequenos aeroportos vulneráveis”. O nível de preparação depende das condições locais, da governança, das escolhas de investimento e dos riscos específicos enfrentados por cada sistema.
Net zero não garante resiliência
Essa talvez seja uma das distinções mais importantes na transição climática da aviação.
Um aeroporto pode reduzir suas emissões operacionais e, ainda assim, permanecer exposto a disrupções físicas relacionadas ao clima. Da mesma forma, investimentos em resiliência não substituem a necessidade de descarbonizar.
As duas agendas são complementares. Não são intercambiáveis.
Para a aviação caribenha, isso significa que a transição climática não pode ser avaliada apenas por meio de metas de emissões ou da adoção de fontes de energia mais limpas. Ela também levanta questões sobre se as infraestruturas críticas e os sistemas operacionais estão sendo preparados para mudanças nas condições físicas.
O avanço da ICAO em direção a orientações mais estruturadas sobre avaliação de riscos climáticos, planejamento da adaptação e fortalecimento da resiliência é, portanto, significativo. Isso sugere que a adaptação está se tornando um componente mais formal da agenda climática de longo prazo da aviação.
A lacuna de implementação identificada na pesquisa da ICAO torna essa mudança ainda mais urgente. A conscientização sobre os riscos já é ampla. A tarefa mais difícil é transformar avaliações em medidas concretas, decisões de investimento e preparação operacional.
Para os aeroportos do Caribe, a questão não é saber se a resiliência deve competir com o net zero.
É saber se os sistemas de aviação da região conseguem avançar simultaneamente nas duas frentes — reduzindo seu impacto climático enquanto preparam infraestruturas críticas para os riscos físicos que já estão moldando a agenda global da aviação.



